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Espetáculo original da Aquela Cia. de Teatro, “Caranguejo Overdrive” comemora os dez anos do grupo trocando o bolo pela farofa. A peça é uma verdadeira farofa de informações – com cara bonita, sim, mas ainda assim uma mistureba de farinha e ingredientes a gosto, que acaba dando certo. A pluralidade comunicacional começa assim que se adentra o espaço cênico. Suspenso no ar, o espectador vê uma gaiola com quatro caranguejos de verdade dentro. No chão, há uma caixa cheia de areia, de ponta a ponta, formando um tapete. Ao fundo, os instrumentos musicais da banda que vai entrar. O impacto visual do cenário é só uma prévia do que está por vir.

(Foto: João Júlio Melo/Divulgação)
(Foto: João Júlio Melo/Divulgação)

Escrito por Pedro Kosovski, o texto engenhoso, fragmentado, usa um personagem chamado Cosme para conduzir o fio de história. Ele nasceu na região do mangue no Rio de Janeiro, onde atualmente fica a Praça Onze, e era chamada de Rocio Pequeno no século XIX. Ele cresceu ali naquele lugar imundo, repleto de doenças, à margem da sociedade. As autoridades, porém, lembraram de sua existência para convocá-lo para a Guerra do Paraguai, mandando-o para o campo de batalha. Dispensado por ter enlouquecido durante a guerra, ele volta para a cidade, mas ela está diferente, passando por sua primeira grande obra de saneamento, e o mangue não está mais lá. Cosme se sente um exilado no próprio lar. Ele é, novamente, um nada, um marginalizado. Primeiro, lhe tiraram de seu espaço e, depois, tiraram o próprio espaço dali.

Cheia de referências históricas e políticas, a narrativa dá abertura para várias interpretações. O espectador tende a sair do teatro ligando pontos, atribuindo sentido e tirando suas conclusões – o que, por si só, é um mérito para qualquer espetáculo: não terminar no aplauso. O texto começa falando de um ciclo vital do mangue: os caranguejos comem os dejetos humanos e os humanos comem os caranguejos. É como se a matéria de excretos não saísse dali. Analisando a vida do Cosme – um nada, transformado em soldado, e por fim novamente um nada (“uma coisa”, como diz um personagem) – percebe-se a reflexão sobre esses ciclos fechados. Em um dos melhores momentos do espetáculo, uma prostituta paraguaia explica para Cosme tudo que aconteceu desde sua ida para a guerra. Ela fala sobre as obras que não acabam nunca, e é inevitável traçar um paralelo com os dias atuais, e ao que o Rio passa desde a Copa do Mundo e mais acentuadamente rumo às Olimpíadas. O mais interessante é que, fazendo uma quebra na verossimilhança e se apropriando desse pensamento natural do público, ela segue narrando os acontecimentos do país nos séculos XX e XXI (sendo que os personagens estão no século XIX!): os ciclos estão ali, de novo. A licença poética mostra que tudo continua se repetindo.

(Foto: João Júlio Melo/Divulgação)
(Foto: João Júlio Melo/Divulgação)

A direção de Marcos André Nunes, parceiro de Kosovski também em “Laio e Crísipo” (2015), “Edypop” (2014), “Cara de Cavalo” (2012), “Outside, um Musical Noir” (2011), “Do Artista Quando Jovem” (2010) e “Lobo nº1” (2008), leva para a cena a farofa do texto. São vários acontecimentos simultâneos. Em um mesmo momento, por exemplo, um ator fala, outro fica nu e se lambuza dos pés à cabeça de lama, outro interage com um caranguejo em cima de um mapa, e outro faz uma performance enrolado em um fio luminoso. Para onde olhar? A escolha é de cada um. Soma-se a isso à presença da banda de três músicos, que incrementa as cenas com canções originais e bem executadas, um show à parte, com direção musical de Felipe Storino. Só os figurinos que não colaboram com essa explosão de dados – negros, minimalistas, não acrescentam nem comprometem. Com tanto para ver, no que prestar atenção realmente se torna uma questão para a plateia. O espetáculo é bastante dinâmico, com novidades visuais a todo momento.

No elenco, estão Carolina Virguez (de “Guerrilheiras”), Alex Nader (de “Répétition”), Eduardo Speroni (de “Bicho”), Fellipe Marques e Matheus Macena , esse último como Cosme. Merece destaque a direção de movimento feita com cada ator: só vendo para entender. Em cena, se sobressaem, pelas oportunidades dramatúrgicas, Carolina e Matheus, de diferentes maneiras, com ótimos desempenhos. O homem meio caranguejo interpretado pelo ator é de tirar o chapéu.

“Caranguejo Overdrive” está terminando sua temporada no Teatro Serrador, no Centro, mas já está com outra agendada no Teatro Poeirinha, entre março e abril.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Direção: Marco André Nunes
Texto: Pedro Kosovski
Elenco: Carolina Virguez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Fellipe Marques e Matheus Macena
Músicos em cena: Felipe Storino, Mauricio Chiari, Samuel Vieira e Pedro Nêgo
Direção Musical: Felipe Storino
Iluminação: Renato Machado
Instalação Cênica: Marco André Nunes
Ideia Original: Maurício Chiari
Produção: Aquela Cia. de Teatro