O espetáculo “Em Bandália” mantém o tom irreverente e político do grupo Dzi Croquettes. Escrita e dirigida por Ciro Barcellos, da formação original dos anos 1970, a peça é totalmente marginal, diferente de tudo que se vê por aí. Ainda hoje, tira o público de sua zona de conforto. Na mesma sessão em que uma senhorinha admite estar assistindo à montagem pela segunda vez, dois casais fogem da sala do Teatro Dulcina bem antes do fim.

dzi1

Assim que as cortinas se abrem, veem-se os atores jovens e sarados travestido de mulheres. Os bíceps e tríceps saltam de maiôs, espartilhos e vestidos justos. Braços e axilas peludas se misturam a figurinos brilhantes e purpurinados. É esse o tom da peça: a exploração dos corpos másculos, em contraponto à feminilidade de cada homem. Em várias cenas, enquanto rebolam e jogam as pernas para o alto, o elenco traja apenas tapa-sexo, com as nádegas expostas. Bumbuns que gritam por atenção. No discurso, a brincadeira entre os gêneros também é frequente. “Você dá pinta demais! Somos atores!”, recrimina o personagem de Sonny Duque, o mais machão. Thadeu Torres e Pedro Valério Lopez rebatem: “Não damos pinta, damos mancha!”.

A narrativa acompanha as experimentações da nova formação do grupo, liderado por Ciro. Em uma garagem, que serve de palco, os rapazes fazem homenagens à Liza Minelli, madrinha do grupo, e Lennie Dale, integrante do grupo original, falecido há 20 anos. Em muitos momentos, a trama é pouco clara e parece dividida em esquetes independentes. O fio condutor é o bom humor, mas a verdade é que algumas piadas são sem graça de tão previsíveis (“Hoje é seu aniversário? Porque você está de parabéns!”). As piadas políticas, ao contrário, caem muito bem. Há menções à ditadura – como um resgate dos tempos áureos – e também críticas ao deputado Marco Feliciano. Sem contar as metáforas e alegorias, presentes do início ao fim.

dzi2

Há performances ótimas, também. O número de “Yes, Nós Temos Bananas” é esteticamente bonito. O tango dançado por Franco Kuster e Robson Torinni também é belo e impressiona pela técnica e sensualidade implícita. Mas o mais aplaudido pelo teatro é o de sapateado. Trata-se de uma performance longa, que é interrompida por palmas em várias momentos, quando o público se equivoca e acha que terminou. Quando, de fato, chega ao fim, os aplausos são efusivos. Outras, como a de cancan, são mais bobas e imaturas.

Com altos e baixos, “Em Bandália” cumpre sua missão de resgatar o Dzi Croquettes para os saudosos e apresentá-lo para uma nova geração de espectadores. A peça já teve mais de cem apresentações em sua turnê brasileira. O plano agora é levá-la para os Estados Unidos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.