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Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas

Os versos de Fernando Pessoa (creditados ao heterônimo Álvaro de Campos) fazem parte da peça “Elogio da Paixão” e são perfeitos para definir a essência do espetáculo, escrito e dirigido por Marcelo Pedreira (de “Duas Vezes um Quarto”). Ele trata do embate entre a razão e a paixão, e também do amor (suave e infinito) e a paixão (visceral e finita), permeado por canções de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Toquinho, Carlos Lyra e Baden Powell. O leque de referências é extenso, como você já deve ter notado, e não para por aqui.

(Foto: Rodrigo Turazzi)
(Foto: Rodrigo Turazzi)

Na história, um ator veterano (Adriano Garib, de “Nu de Mim Mesmo”), que já foi casado nove vezes, contrata um jovem dramaturgo (André Arteche, de “Fazendo História”), que nunca se apaixonou, para escrever a peça que marcará sua despedida dos palcos. A aproximação entre eles é marcada por divergências criativas: o garoto quer escrever algo taciturno, existencialista e introspectivo, inspirado em seu ídolo, o filósofo Schopenhauer, mas o que o ator encomenda é totalmente diferente. O homem mais velho quer um espetáculo solar e intenso sobre paixão. Parece uma missão impossível para o jovem, e ele só consegue dar os primeiros passos quando cai de amores – e de dores de amor – pela filha do ator (Marina Palha, de “S’imbora, o Musical”). A metalinguagem, que leva o público a assistir ao processo de criação de uma peça em cena, ganha contornos ainda mais expressivos ao longo da encenação, quando se percebe que se vê exatamente o espetáculo que está sendo escrito ali.

A fórmula de dois protagonistas de personalidades antagônicas é recorrente na dramaturgia, inclusive o contraponto razão e emoção. O texto de Pedreira parte disso, mas avança ao focar no processo de impregnação do jovem pelo veterano. O personagem de Arteche começa um e termina outro. A peça tem bons momentos, apesar de ser repetitiva e cheia de excessos, que resultam em 110 minutos de duração desnecessários. As músicas, que entram na dramaturgia quase sempre inexplicavelmente, muitas vezes não agregam à narrativa. São 11 canções ao todo entre os diálogos, e esse número poderia ser reduzido à metade, sem qualquer perda. De qualquer forma, “Inútil Paisagem”, “A Vida Tem Sempre Razão” e “Se Todos Fossem Iguais a Você”, entre outros clássicos, enternecem a plateia. Não dá para reclamar da trilha sonora, porém alguns dos números musicais são genuinamente ridículos – com sorte intencionalmente, pois a experiência do ridículo é algo que a história defende. Graças à direção de movimento de Duda Maia, a interpretação de determinadas canções tem seu nível elevado.

Nesse espetáculo, Pedreira se sai melhor como diretor do que dramaturgo. É perceptível como o texto ganha força em cena, o que é ótimo. Os altos e baixos são percebidos, mas o espetáculo te envolve de algum modo: é gostoso de ver. O trio de atores também merece créditos, pois é primordial para melhorar a história. Garib pela extravagância, Arteche pelas sutilezas e Palha pela feminilidade e pelo canto – os três arrebentam e contagiam. É fácil se deixar levar por eles e sair do teatro inspirado, apaixonado não se sabe pelo quê ou por quem. Será aquela música do Vinícius que podia ser cortada que desperta esse sentimento? Talvez. Paixões e contrassensos são amigos íntimos.

A trama se passa majoritariamente na sala da casa do ator que encomenda a peça. É ali que ele e o dramaturgo têm suas reuniões, bebedeiras, brigas e conversas íntimas. O cenário lembra um pouco os de sitcoms de subúrbio, como “Vai Que Cola”. Com a iluminação, colorida demais às vezes, esbarrando no cafona, é possível ampliar o espaço e criar outras ambientações quando os personagens recorrem a flashbacks e narrações de momentos fora dali. Os figurinos estão a favor dos atores na construção dos papeis, embora a justificativa dos momentos das trocas não seja nada clara para a plateia.

“Elogio da Paixão”, com esse nome que poderia ser de novela mexicana (mas é uma referência – outra! – ao livro “Elogio da Loucura” de Erasmo de Roterdão), cumpre seu principal objetivo que é amolecer corações. Como o jovem dramaturgo da história, os espectadores também são contagiados por esse espírito. Paixão não se explica, mesmo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Rodrigo Turazzi)
(Foto: Rodrigo Turazzi)

Ficha Técnica
Texto, Direção e figurino: Marcelo Pedreira
Elenco: Adriano Garib, André Arteche e Marina Palha
Direção Musical: Felipe Habib
Direção de Movimento: Duda Maia
Cenografia e Luz: Paulo Denizot
Assistência de Direção: Beatriz Bertu
Designer Gráfico: Thiago Ristow
Produção Executiva: Aline Mohamad
Direção de Produção: Marcelo Chaffin
Realização: Criaturas Criativas

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 20. 110 min. Classificação: 12 anos. Até 5 de junho. Centro Cultural Correios – Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro. Tel: 2253-1580.