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Com o intuito de levar para o grande público as descobertas da psicanálise, o psicanalista Antonio Quinet fundou a Cia. Inconsciente em Cena há nove anos. Os espetáculos resultam de suas pesquisas no âmbito acadêmico e são apresentados, inclusive, fora do país. A peça mais recente, “Hilda e Freud”, passou por Londres e Buenos Aires antes de estrear no Brasil. Ela já fez duas temporadas no Rio: a segunda terminou no último fim de semana, com sessões extras no Teatro Maison de France, no Centro. O projeto, no entanto, tende a agradar mais aos psicanalistas do que o público habitual das artes cênicas.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O conteúdo, antes de mais nada, é um prato cheio para os estudiosos das teorias de Sigmund Freud (1856-1939). A trama, baseada em fatos reais, mostra as sessões de análise da poetisa Hilda Doolittle (1886-1961) com o pai da psicanálise nos anos 30, em Viena, durante a ascensão do nazismo. O texto, escrito por Quinet, parte do que a própria escritora deixou registrado em seu diário e em correspondências privadas – em tese, permitindo acessar Freud de uma perspectiva externa, e não a partir da obra dele. Digo em tese, porque, na prática, o espetáculo pouco desvenda desse personagem. O espectador sai do teatro sabendo muito mais de Hilda do que de Freud. Afinal, é a mente dela que está exposta, a partir dos relatos dela, enquanto ele se limita a ouvir e fazer uma ou outra observação.

A dramaturgia não é boa. Não existe nenhum conflito que mantenha a plateia minimamente interessada. A peça parece uma palestra, um seminário – e por isso deve agradar mais aos acadêmicos do que ao grande público. No início, particularmente, há basicamente uma introdução de monografia. Transformando-se no personagem, Quinet aparece no palco detalhando a biografia de Hilda Doolittle até chegar ao recorte (objeto de estudo) da trama. A contextualização se dá da pior maneira, como um aulão, logo após Bel Kutner (de “Oportunidade Rara”), a intérprete de Hilda, ter feito algo parecido sobre Freud. Levam-se aí mais de dez minutos dos 60 da peça, de maneira tediosa. O que vem depois não é muito diferente, sem fio narrativo, sem nada além do ilustrativo do passar dos dias, mas é mais encenado.

Bel Kutner cumpre sua função como atriz da palestra com encenação. Antonio Quinet, com menor habilidade de interpretação, conduz o espetáculo, que ele mesmo dirige. A concepção faz uma tentativa de valorizar o onírico, já que Freud fazia interpretações de sonhos em suas análises. O cenário se apoia nessa ideia com projeções de imagens diversas em um grande painel atrás dos atores. Fora isso, a cenografia conta apenas com três bancos brancos quadrados, compondo uma paleta minimalista com os figurinos dos atores, pretos. É pouco. Visualmente, também não é interessante. Mas o que incomoda mais é a iluminação, com excessos de fades para marcar as mudanças de dias. Como são muitas sessões representadas são também muitas escuridões, o que banaliza o artifício e empobrece a cena. Como espetáculo, “Hilda e Freud” é uma ótima apresentação de seminário de um professor criativo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Antonio Quinet
Elenco: Bel Kutner e Antonio Quinet
Direção: Antonio Quinet e Regina Miranda
Direção de arte e cenografia: Analu Prestes
Videocenografia: Mídias Organizadas
Iluminação: Fernanda Mantovani e Tiago Mantovani
Trilha Sonora: Regina Miranda sobre a obra de Rodolfo Caesar, Alberto Iglesias e Philip Glass Ensemble
Figurino: Beto de Abreu
Visagismo: Uirande Holanda
Preparação vocal: Rose Gonçalves
Fotografia: Flavio Colker
Programação visual: Mary Paz
Comunicação em mídias sociais: Radha Barcelos
Direção de produção: Alice Cavalcante
Assistência de produção: Luísa Reis
Co-produção: Sábios Projetos e Atos e Divãs
Realização: Cia. Inconsciente em Cena