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Como uma crônica, o espetáculo “Lucrécia” acompanha um domingo de Carnaval de uma família de classe média do subúrbio carioca, em casa. Há a mãe que bebe para distrair o tédio, o marido recém-aposentado e lunático, a falta de comunicação entre o casal, e os três filhos: um menino afeminado, uma menina criativa e a irmã mais velha, introspectiva, que só encontra companhia na empregada. Classificado como tragicômica, a peça tem um ou outro momento de humor mais rasgado, a partir da chegada de uma prima inconveniente e desagradável na casa. São essas, na verdade, as melhores partes.

(Foto: Linn Jardim)
(Foto: Linn Jardim)

O texto é de Leandro Baumgratz (ator de “Besame Mucho”), inspirado na obra da cineasta argentina Lucrécia Martel, de onde vem o título. São dela filmes como “A Menina Santa”, “O Pântano” e “A Mulher Sem Cabeça”. Na peça, Lucrécia dá nome à Villa Lucrécia, um casarão construído no século XIX como sede de uma fazenda, que já não existe. Isso está escrito no material de divulgação, mas não é claramente explicitado na encenação. O que o público sabe é que se trata de uma casa muito antiga, herança de família, já aos pedaços, com cheiro de mofo, onde vivem os personagens. O espetáculo se passa todo dentro da residência, alternando entre sala, quarto, porão e cozinha. Todos circulam, enquanto a mãe passa a maior parte do tempo emplastada no sofá, alternando garrafas e fazendo reclamações.

Do começo ao fim, o texto pouco evolui. Baumgratz se debruça mais no aprofundamento de cada personagem, de modo que o espectador os conheça melhor a cada cena. A história, em si, é uma mera sucessão de acontecimentos mais ou menos relevantes em um dia ordinário, que por acaso é Carnaval – manifestação que só é sentida pela chegada da prima, vinda da rua. Ali dentro, não há festa. A direção de Alexandre Mello (de “O Branco dos Seus Olhos”) tampouco acentua os dramas particulares ou carrega as tintas no humor, limitando-se a apresentar os fatos sem muita emoção. Há uma linearidade no nada.

O ponto alto do espetáculo é o confronto entre a matriarca e a prima, que traz o olhar externo sob aquela casa. Igualmente bêbada, ela critica a residência, a dona da casa, a empregada e o comportamento dos seus filhos, até que termina expulsa embaixo de chuva. A mãe reclama, mas defende seu clã. Suas intérpretes, Eliane Costa (de “Velha É a Mãe!”) e Jojo Rodrigues (de “A Decisão”), são as que mais cativam no espetáculo. Personagens como o pai e a filha menor, inventando histórias, são menos consistentes.

Outro ponto positivo da montagem é a utilização do espaço cênico. O cenário de Baumgratz se apropria da estrutura do teatro, esticando a cena até a coxia, ampliando as possibilidades de atuação. A sala e a cozinha do casarão são dadas com mais elementos construtivos, e todo o resto é sugerido ao público, com auxílio da iluminação de Renato Machado, uma saída inteligente. Quanto aos figurinos, assinados por Nina Reis, eles têm uma estética farsesca, kitsch, como uma paródia, o que convida o espectador a olhar tudo com menos seriedade.

(Foto: Linn Jardim)
(Foto: Linn Jardim)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha Técnica:
Direção, cenografia e ideia original: Alexandre Mello
Texto: Leandro Baumgratz
Produção: Rogerio Garcia & Paula Loffler
Elenco: Eliane Costa, Oscar Saraiva, Guilherme Prates, Nina Reis, Paula Loffler, Rogério Garcia, Jojo Rodrigues, Luana Salazar
Banda sonora e desenho de som: Phillippe Baptiste
Desenho de luz: Renato Machado
Figurinos: Nina Reis
Assistência de figurino: Yanna Bello
Cenotécnico: Marcelo Dertonio
Assistente de produção e direção: Lays Ariozi
Programação visual e redes sociais : Paula Sattamini
Fotos: Linn Jardim

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 20. 70 min. Classificação: 12 anos. De 12 até 28 de fevereiro. Sesc Tijuca – Teatro I – Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca. Tel: 32382139.