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Dirigido por José Possi Neto (de “Raia 30”), “Master Class” é um espetáculo sobre a cantora lírica Maria Callas (1923-1977), mas não se trata de uma biografia convencional. O recorte é o ostracismo artístico dela, quando já cantava pouco e se dedicava a dar aulas magnas para jovens aspirantes à carreira operística. A trama se passa durante uma dessas aulas, na qual o público conhece o perfeccionismo, o detalhismo, a rigidez, a franqueza e o nível de exigência da personagem, interpretada com firmeza por Christiane Torloni (de “A Loba de Ray-Ban”).

(Foto: Marcos Mesquita / Divulgação)
(Foto: Marcos Mesquita / Divulgação)

Uma das opções da direção é usar a plateia real como os espectadores fictícios da aula. A Callas de Torloni se dirige ao público, o indaga, o critica e faz observações, como se fosse mesmo um seminário. Os personagens dos estudantes (são três), que se põe à prova da franqueza da professora, sobem da plateia para o palco, como se fossem “um de nós”. Como se pudesse chegar a vez de qualquer um ali a qualquer momento, o que de certo é envolvente.

A trama, em si, não passa de uma exposição de características da cantora de ópera. Antes da encenação, a produção exibe um minidocumentário sobre a vida e a carreira da artista, contextualizando sua chegada até aquele ponto, o que equilibra os conhecimentos dos espectadores. O texto propriamente dito – assinado por Terrence McNally (de “Ou Tudo Ou Nada – O Musical”) – limita-se a mostrar a personalidade de Maria Callas, usando os alunos como escada. Mas não há grandes acontecimentos dramatúrgicos. Com isso, Christiane Torloni engole o espetáculo. É dela. É para ela brilhar. E ela realmente se apropria da personagem – real, mas em cenas fictícias, baseadas em fatos verídicos.

Os outros atores também não desperdiçam suas oportunidades e se aproveitam ao máximo de suas entradas. Cada um tem seu momento. São bonitas as apresentações de ópera que eles fazem sob as críticas da professora. Todos são aplaudidos pelo público impressionado. Mas é Torloni, que não canta em cena, a dominar o palco com sua Maria Callas. Ela tem uma presença inigualável.

O cenário de Renato Theobaldo é uma estrutura fixa simples e reflete a luz de Wagner Freire e as projeções visuais que por ventura aparecem. Não tem grande contribuição cênica, mas não compromete. Os figurinos de Fabio Namatame, por sua vez, são em sua maioria estereotipados, em função do texto, que põe Callas falando de “looks” e criticando vestimentas. O resultado é regular. “Master Class” vale pela Torlonni, que faz um belíssimo trabalho, mas não deixa um legado maior para o público, ainda que tenha vencido três Tony Awards na montagem da Broadway, incluindo o prêmio de “melhor espetáculo”. Assistindo, o troféu soa como exagero.

(Foto: Marcos Mesquita / Divulgação)
(Foto: Marcos Mesquita / Divulgação)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Texto: Terrence McNally
Direção de Cena: José Possi Neto
Direção Musical: Maestro Fabio G. Oliveira
Elenco: Christiane Torloni, Jayana Gomes Paiva, Julianne Daud, Leandro Lacava, Thiago Rodrigues e Thiago Soares
Cenografia: Renato Theobaldo
Design de luz: Wagner Freire
Design de som: Fernando Fortes
Figurinos: Fabio Namatame & Claudeteedeca
Produção: Elza Costa
Assistente de Produção: Vanessa Campanari
Assistente de Direção de Cena: Vanessa Guillén
Designer Gráfico: Ebert Wheeler
Diretor Técnico: Jorge Basto
Produção Geral: Julianne Daud e Fabio G. Oliveira
Realização: Maestro Entretenimento

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SERVIÇO: sex, 21h; sáb, 21h; dom, 20h. R$ 80 (sex) e R$ 90 (sáb e dom). 90 min. Classificação: 12 anos. Até 6 de março. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52, 3º piso – Gávea. Tel: 2274-9696.