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O ator Stênio Garcia (de “Michelangelo”) volta aos palcos pela primeira vez em 18 anos para comemorar seus 60 anos de carreira – a maioria dedicados à televisão. O espetáculo da celebração é “O Último Lutador”, idealizado pelo ator e dramaturgo Marcos Nauer (de “Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Sadia Que a Nossa”), e escrito para Stênio desde a primeira palavra. Na história, ele é o patriarca de uma família desgarrada, com muitas diferenças e mágoas entre si, mas com um interesse em comum: as lutas de vale tudo, origem do que depois se convencionou chamar de MMA. A trama se passa em 1992, quando Caleb, o personagem de Stênio Garcia, arma um reencontro e uma reaproximação de seus filhos e netos tendo como desculpa um campeonato com prêmio de um milhão em dinheiro.

(Foto: Cristina Granato)
(Foto: Cristina Granato)

O público tem acesso a informações que os personagens não têm e prevê facilmente o que vai acontecer com eles. A história começa quando o ex-lutador Enosch (Glaucio Gomes, de “À Sombra das Chuteiras Imortais”) vai até uma cidadezinha buscar o jovem Davi (Marcos Nauer) para a cidade grande, com o intuito de treiná-lo. Logo, revela-se que o lutador promissor é sobrinho de Enosch e neto de Caleb. Ele foi levado para longe pela mãe por causa dos maus tratos do pai alcóolatra, Tito, o outro filho de Caleb. Abrigado pelo patriarca, o garoto é apresentado a um pastor, que já foi um grande lutador e aceita treiná-lo – este, no caso, é seu próprio pai, Tito (Antonio Gonzalez, de “Por Falta de Roupa Nova Passei o Ferro na Velha”), em outro momento da vida. Para completar a rede de segredos e mentiras, Davi terá que enfrentar no campeonato nada menos que seu irmão, Daniel (Daniel Villas, de “Fábrica”), que, assim como ele, detesta o pai. O objetivo de Caleb, à beira da morte, é unir todos pelo amor à luta (e ao dinheiro, também). Na violência e na ambição, os homens da família se entendem.

O texto com ar de novela vespertina é de Marcos Nauer e Teresa Frota (de “Os Impagáveis”). Peca pela obviedade e as lutas, que serviriam de pano de fundo para o dramalhão familiar, por fim sobrepõe este. Gera mais curiosidade saber quem vencerá a luta final – porque os netos repetem um duelo da geração anterior, o que é um paralelo interessante – do que como será a solução das divergências entre o clã de lutadores. A direção de Sérgio Módena (de “Ricardo III”) tampouco é eficiente no aprofundamento do aspecto emocional da peça, contribuindo para que o fio condutor se torne uma questão secundária. A utilização do espaço cênico, por outro lado, é um ponto positivo, com elogios para a cenografia de Aurora dos Campos, em especial para a montagem do ringue na reta final. Os figurinos, de Antonio Guedes, também são condizentes e trazem acessórios como discman que ajudam a ambientar a história no passado.

Marcos Nauer, como co-protagonista da história que escreveu, é o mais convincente em cena. Como ator, está fazendo um ótimo trabalho dentro das limitações dramatúrgicas. Stela Freitas (de “A Atriz”), como a parceira de Caleb, também está muito cativante. Mas o elenco é muito desequilibrado, o que é prejudicial para o todo. O próprio Stênio Garcia tem altos e baixos durante a encenação, embora o público perdoe. Além disso, seu papel é protagonista, por manipular a vida de todos os outros personagens, mas o ator não tem cenas tão boas. A comemoração dos seus 60 anos conclui-se uma festa regular.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

o ultimo lutador

Ficha técnica
Ideia Original: Marcos Nauer
Texto: Marcos Nauer e Teresa Frota
Supervisão de dramaturgia: Teresa Frota
Direção: Sergio Módena
Elenco: Stênio Garcia, Stela Freitas, Marcos Nauer, Antonio Gonzalez, Glaucio Gomes, Mari Saade, Daniel Villas e Carol Loback
Diretor assistente: André Viéri
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Antonio Guedes
Música Original: Marcelo Alonso Neves
Fotografia: Milton Menezes
Instrutor de lutas: Milton Vieira – Rio Fighters
Instrutor de jeet kune do: Paulo Oliveira – Kalirio
Preparador corporal para o tango: Edio Nunes
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Fotos e Programação Visual: Milton Menezes
Assistente de produção: Luana Simões
Produção: Norma Thiré e Frederico Reder
Realização: Brainstorming Entretenimento e Quarta Dimensão Entretenimento

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SERVIÇO: sex, sáb e seg, 21h; dom, 20h. R$ 70 (sex e seg) e R$ 90 (sáb e dom). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 7 de março. Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52, 2º piso – Gávea. Tel: 2239-1095.