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O musical “Wicked” é um dos grandes momentos de 2016 nas artes cênicas do Brasil. Fenômeno na Broadway desde 2003, assistido por milhões de pessoas em todo o mundo, o espetáculo tem sua primeira versão em solo brasileiro com músicas cantadas em português e por elenco nacional protagonizado pelas gloriosas Myra Ruiz e Fabi Bang. O compositor Stephen Schwartz, autor dos célebres “Godspell” e “Pippin” e ganhador de três Oscar e de quatro Grammy, é quem assina a trilha sonora original. A peça é baseada em livro de Gregory Maguire sobre o universo anterior dos personagens do clássico “O Mágico de Oz”.

(Foto: Divulgação / Marcos Mesquita)
(Foto: Divulgação / Marcos Mesquita)

Assinada pela Time for Fun, a produção brasileira, que custou bem investidos dezesseis milhões de reais, aproxima o público daqui da original. Com eletricidade suficiente para abastecer doze casas, 170 diferentes tipos de couro no figurino, oitenta toneladas de cenário e 34 atores em cena (mais equipe técnica), é um dos maiores espetáculos do ano no Brasil e certamente um dos melhores. Em cartaz desde março no Teatro Renault, na Bela Vista, em São Paulo, a peça pode ser vista lá até 31 de julho. Espera-se que venha também ao Rio de Janeiro e país a fora.

O fenômeno mundial “Wicked”

A história de “Wicked” começa um pouco depois da narrativa de “O mágico de Oz” ter iniciado. No célebre filme de 1939, baseado na obra do americano L. Frank Braum (1856-1919), um terrível tornado devasta o Kansas no dia em que a garota Dorothy (Judy Garland) voltou para a casa de seus tios após ter fugido para salvar o seu cão Totó. Enquanto todos se abrigaram em um lugar protegido, ela não teve a mesma sorte e acabou sendo atingida por um pedaço de janela. Talvez inconsciente, ela vê o chalé onde mora ser arrastado do solo pelos ares na tempestade. A casa, ao cair no chão, atinge a Bruxa Má do Leste, matando-a. Dessa forma, Dorothy, sem querer, “salva” o povo de Munchkin do seu terrível jugo, mas também desperta a ira da Bruxa Má do Oeste, que jura vingança. Glinda, a Bruxa Boa do Norte, aparece e diz que só quem poderá ajudá-la a voltar para casa é o Mágico de Oz, que mora na Cidade das Esmeraldas, no fim da estrada de tijolos amarelos. Calçando os sapatos de rubi que eram da bruxa falecida, Dorothy parte em sua aventura de volta ao lar, fazendo amigos e também inimigos. No original em inglês, “Bruxa Má” é “Wicked Witch”, daí o nome do musical cuja montagem brasileira aqui se analisa.

“Wicked” é a estreia da roteirista Winnie Holzman na Broadway e também seu único trabalho relevante até o momento. Trata-se da adaptação para comédia-musical da novela infanto-juvenil “Wicked: the life and times of the Wicked Witch of the West”, lançada em 1995. Escrita por Gregory Maguire, é a primeira de uma série formada por mais três outras obras. É uma brilhante proposta do universo anterior das personagens Bruxa Boa do Norte, Bruxa Má do Leste e principalmente da Bruxa Má do Oeste aqui chamadas respectivamente de Nessarose, Glinda e Elphaba.

A montagem original estreou em Nova Iorque em outubro de 2003. Ela perdeu o Tony Award de Melhor Musical para “Avenida Q”, mas recebeu o troféu de Melhor Cenário, Figurino e Atriz (Idina Menzel), além de outras cinco indicações. Cumpriu 5.124 apresentações, se tornando a 10ª produção com temporada mais longa da história da Broadway, acima de “Rent” e abaixo de “A Bela e a Fera”. A primeira montagem de Londres ainda está em cartaz e atualmente se sustenta no 17º lugar do ranking similar. Uma versão cinematográfica, produzida pela Universal com direção de Stephen Daldry, está a caminho.

A potência dessa dramaturgia musical

A narrativa de “Wicked” começa quando Glinda (Fabi Bang) revela que conheceu Elphaba (Myra Ruiz) nos tempos da faculdade. As recordações dela, porém, se confundem com fatos que nem ela mesmo sabe. Dessa maneira, o público, lá pelas tantas, passa a ter acesso a informações privilegiadas sobre os personagens como um todo. Sem dúvidas, isso define uma relação muito especial entre palco e plateia que contribui com o sucesso desse musical. Em outras palavras, quem assiste e quem vive a história têm pontos de vista diferentes sobre tudo o que acontece. Se Elphaba é uma bruxa má para a maior parte dos personagens, para o público talvez não seja.

Elphaba, primeira filha do Governador de Munchkin, nasceu verde. Por causa disso, sua inteligência e dom especial para a bruxaria não a tornaram mais respeitada por sua família. O primeiro encontro dela com Glinda se dá quando as duas são recepcionadas na faculdade. Elphaba chega como acompanhante de Nessarose (Giovanna Moreira), sua irmã mais nova, que não pode andar e, por isso, vive em uma cadeira de rodas. Glinda, chamada de Galinda nessa parte da história, é loira, linda e bem vestida e, por tudo isso, muito popular. Sem querer, Elphaba impressiona a professora Madame Morrible (Adriana Quadros), que lhe concede uma vaga em seu concorrido seminário (“O Mágico e Eu”). Assim, de um lado, a estranha e inteligente Elphaba se opõe à popular e burra Galinda, mas o destino as aproxima em uma amizade tão imprevisível quanto inevitável.

(Foto: Divulgação / Marcos Mesquita)
(Foto: Divulgação / Marcos Mesquita)

De um modo extremamente tocante, a dramaturgia percorre marcas que desvendam, enfrentam e aprofundam a complexidade dos personagens. A falta de inteligência de Galinda (da canção “Popular”) vai se tornando ingenuidade ao longo da peça para então ser símbolo de pureza. É esse último valor que talvez garanta a ela o acesso àquilo que ninguém mais vê. A incapacidade de andar de Nessarose vai se mostrando inabilidade em avançar, o que não tem nada a ver com uma deficiência física mas vai além. Toda a imagem negativa que Elphaba, querendo ou não, constrói para si, pouco a pouco, abandona a simplória discussão sobre vitimização e culpabilidade em busca de reflexões sobre se desprender do passado, do destino e se tornar sujeito da própria história. “Desafiar a gravidade”, a canção-tema de todo o espetáculo, fala sobre isso: desprender-se das condições naturais e do passado, libertar-se e voar.

Outros personagens importantes participam da narrativa. O bonitão e cobiçado Fiyero (André Loddi alternando com Jonatas Faro) surge (“É só dançar”) reforçando as diferenças entre Elphaba e Galinda, mas também unindo as duas no que ambas sentem por ele. Doutor Dillamond (César Mello) traz à narrativa a importância do estudo como aquilo que, além do sangue e das posses, é capaz de fazer alguém crescer. Em especial, esse personagem inclui na peça a crítica ao modo como o saber está desprivilegiado hoje em dia. Boq (Bruno Fraga) traz o valor de se dedicar ao outro e o Mágico de Oz (Sérgio Rufino) sugere o autoritarismo que advém da insegurança. Dorothy, que não aparece, talvez represente as velhas crenças que permanecerão válidas enquanto não forem substituídas por outras.

O segundo ato, ainda em termos de dramaturgia, não é tão bom quanto o primeiro, pois nele o espectador sorve menos a narrativa de “Wicked” e mais o modo como essa peça se relaciona com “O Mágico de Oz”. Na primeira parte, Glinda e Elphaba já são adultas e socialmente já assumem as responsabilidades por seus atos. Depois, conhecem-se as origens de Homem de Lata, Espantalho e de Leão e também como Nessarose se tornou a Bruxa Má do Leste. Os méritos da abertura se conservam no final. “Tudo mudou”, uma das canções mais lindas de Stephen Schwartz, surge dando sentido para a narrativa. Ela reposiciona o espectador, que está diante do final já conhecido, que já tem, nesse momento, novos pontos de vista para fruí-lo de modo diferente. O final, um segredo mantido entre quem assiste à história e alguns de seus personagens, coroa a relação entre essas partes.

Excelente montagem brasileira

A versão brasileira de “Wicked”, produzida pela Time For Fun, está nos mesmos padrões das montagens internacionais. O cenário de Eugene Lee brilha aos olhos dos brasileiros como aos do mundo, produzindo o êxtase de que narrativas desse tipo dependem e merecem. O mesmo quanto ao figurino de Susan Hilferty (com visagismo de Tom Watson e de Joe Delude II) e à luz de Kenneth Posner. As cenas do baile e da Cidade das Esmeraldas, além da abertura, fim do primeiro ato e encerramento garantem, sob todos os aspectos, a extravaganza de que a comédia musical americana necessita desde os tempos de Florenz Ziegfield no início do século XX. A trilha sonora de Stephen Oremus, William David Bron, James Lynn Abbott, Alex Lacamoire e de Adam Souza confere sensibilidade e pujança capazes de tocar o público e embalar as emoções. As coreografias de Wayne Cilento e de Corinne McFadden Herrera agem no mesmo sentido positivamente. Em resumo, a direção de Joe Mantello, Lisa Leguillou e de Rachel Ripani, dos aspectos visuais aos cênicos, permite à audiência acessar os méritos da montagem original tantas vezes elogiada sob os termos dos seus mais altos padrões.

A tradução das canções, feita por Mariana Elisabetsky e por Victor Mühlethaler, se mostra preocupada em não fazer do português um problema diante da agilidade da língua inglesa. Com habilidade, eles não reduzem os sentidos, nem modificam seus lugares semânticos, mas investem nas possibilidades que nosso idioma oferece com coragem. O resultado chega com fluência equilibrada, com a força esperada e com a beleza coerente com o todo. A dupla, ainda em início de carreira nessa função, promete dividir o mercado com aqueles já célebres nele, no que o público brasileiro há de ganhar. A direção musical aqui foi assinada por Vânia Pajares.

Fabi Bang e Myra Ruiz em excelentes atuações

32 atores estão em cena em excelentes trabalhos dentro do mais alto rigor estético que uma produção imensa como essa exige. Em termos de música e de dança, mas, em especial, no que se refere à interpretação, o resultado concorda com o sucesso esperado pelos investidores e pelo público fã de espetáculos assim. É bonito reencontrar Sara Marques, Thuany Parente e Leo Wagner nesse grupo. No elenco principal, César Mello (Doutor Dillamond), Bruno Fraga (Boq) e Giovanna Moreira (Nessarose), com menos oportunidades, exibem colaborações cheias de força nos detalhes, o que renova os méritos do todo. André Loddi (Fiyero) e principalmente Adriana Quadros (Madame Morrible) apresentam os limites mais sólidos por onde a história caminha com responsabilidade e graça. Neles, a sensualidade e o aspecto ardiloso de seus personagens respectivamente se destacam. Sergio Rufino (Mágico de Oz) perde oportunidades em apresentar com mais profundidade seu papel que foi, na montagem original, defendido por Joel Grey, mesmo ator que eternizou o Mestre de Cerimônias em “Cabaret”.

Impossível não pensar no tamanho de suas referências ao analisar o trabalho de Fabi Bang (Glinda) e de Myra Ruiz (Elphaba) na montagem brasileira de “Wicked”. As duas personagens protagonistas foram interpretadas, na Broadway, por Kristin Chenoweth e por Idina Menzel, duas atrizes da mais alta grandeza do teatro musical no mundo. A segunda, uma mezzo-soprano, recebeu o Tony Award por sua atuação como protagonista nessa produção. A primeira, uma colatura-soprano (3 oitavas e um semi-tom, exatamente a mesma cobertura de Maria Callas), para além de sua potência vocal, é uma das melhores atrizes cômicas americanas. Isso expõe o enorme desafio bem como seus méritos ao transpô-lo. Ambas, em excelentes atuações, se sucedem nas atenções do público. Ruiz, com força e sensibilidade, toca pelo aspecto complexo de sua Elphaba. Bang, em uma representação alegre, ágil mas não menos sensível de Glinda, encanta. Em duas frentes colaborativas, o espetáculo tem, nessas duas colaborações, grande justificativa para seus aplausos mais nobres.

Vida longa!

Globalizado desde o fim da II Guerra Mundial, o mundo já não tem mais espaço para reflexões baratas como aquelas que dizem respeito a produções americanas em solo brasileiro. Não se trata de privilégio para o Brasil receber uma equipe criativa estrangeira, liderando brasileiros na viabilização de um musical dos Estados Unidos. Mas há que se saudar com honestidade trabalhos tão bem feitos seja de qual país for. “Wicked” é um dos maiores fenômenos de nosso século dentro de seu gênero e aqui surge capaz de honrar nosso público. A todos os envolvidos, de lá e de que aqui, parabéns e vida longa!

Por Rodrigo Monteiro
Crítico teatral, mestre em Artes Cênicas e professor universitário.

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Ficha técnica
Texto: Winnie Holzman (adaptado da obra de Gregory Maguire)
Direção: Joe Mantello, Lisa Leguillou e Rachel Ripani
Elenco: Myra Ruiz, Fabi Bang, Sérgio Rufino, Adriana Quadros, Jonatas Faro, André Loddi, Giovanna Moreira, Bruno Fraga, César Mello, Talita Real, Hellen de Castro, Júlia Duarte, Roberta Jafet, Sara Marques, Vânia Canto, Carolina Franco, Jess Gardolin, Laura Ávila, Sâmella Nathielle, Andreza Meddeiros, Fernanda Muniz, Thuany Parente, Diego Montez, Jessé Scarpellini, Leo Wagner, Matheus Paiva, Rodrigo Negrini, Fábio Lima, Gabriel Malo, Kaue Ribeiro, Lucas Nunes, Cauan Vieira, Guilherme Pereira, Sandro Conte
Letras e músicas: Stephen Schwartz
Versão brasileira: Mariana Elisabetsky e por Victor Mühlethaler
Direção musical: Vânia Pajares
Coreografias: Wayne Cilento e Corinne McFadden Herrera
Cenário: Eugene Lee
Figurino: Susan Hilferty
Visagismo: Tom Watson e Joe Delude II
Iluminação: Kenneth Posner
Produção: Marc Platt, Universal Pictures, The Araca Group, Jon B. Platt, David Jones e Time For Fun.

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 16h e 21h; dom, 15h e 20h. R$ 50 a R$ 280. Classificação: livre. Até 31 de julho. Teatro Renault – Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411 – Bela Vista – Sâo Paulo. Tel: (11) 4003-5588.