Stepan Nercessian interpreta o Velho Guerreiro (Foto: Juliana Cerdeira)
Stepan Nercessian interpreta o Velho Guerreiro (Foto: Juliana Cerdeira)

“Chacrinha – O Musical” é tudo que o espectador espera, para o bem e para o mal. As cores, a animação, a irreverência, as músicas, a cafonice, o erotismo das chacretes, o bacalhau, o abacaxi, a buzina… está tudo lá. Mas não só. “Chacrinha – O Musical” também traz o inesperado, com uma fuga do óbvio. São quase dois espetáculos em um só: o previsto e o imprevisto. A nova produção milionária da Aventura Entretenimento repete, sim, a fórmula bem sucedida das biografias teatrais, mas apenas em parte. O texto de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira (de “Rock in Rio – O Musical”) se preocupa mais com a essência de Abelardo Barbosa, pessoa física, e Chacrinha, pessoa pública/personagem, do que com a pontuação sucessiva de passagens marcantes da vida e da obra. E isso acontece de uma maneira curiosa.

A peça é dividida em dois atos – “dois planos sequências”, como diz o cineasta Andrucha Waddington, que faz sua estreia na direção teatral. O primeiro surpreende porque é o oposto do imaginável para um musical do Chacrinha. Neste, conta-se a história do Abelardo Barbosa dos dez aos 40 anos, passando por Campina Grande, Recife, Rio de Janeiro e Niterói. Até aí, tudo bem – embora essa história por si só já seja uma novidade para a maioria das pessoas. No entanto, a surpresa vem pela estética, inspirada no cordel nordestino, com personagens imaginários e animalescos em tons de marrom e barro. No lugar da euforia do Chacrinha, o público é surpreendido por algo poético e tão grande quanto aos olhos – mas satisfazendo a necessidade da cronologia biográfica básica. No segundo ato, é aquilo tudo que a plateia saiu de casa para ver. O cenário é invadido por adereços infláveis, arquibancadas, chacretes de roupa cavada, caricaturas de cantores famosos, muita cor, um rosto do Chacrinha gigante… é exatamente como um estúdio de TV. Apesar disso, é justamente neste ato que o musical liberta-se das amarras de uma biografia tradicional, com cenas quase independentes entre si, mais preocupadas em extrair a essência de um ícone do que seguir uma narrativa. É uma homenagem clara. Então, quando a biografia tradicional é seguida, a estética surpreende, e quando liberta-se dos dados biográficos, a estética atende às expectativas. É interessante essa estrutura. Há ainda, no segundo ato, espaço para improviso – com calouros vindos da plateia – e participações especiais: Xuxa Meneghel, Rita Cadillac, Elke Maravilha, Fernanda Torres e Russo foram os primeiros.

Cena de Fábio Jr. cantando "Pai": plateia delira (Foto: Juliana Cerdeira)
Cena de Fábio Jr. cantando “Pai”: plateia delira (Foto: Juliana Cerdeira)

Além disso, o espetáculo conta com mais de 60 canções (todas conhecidas do público), então não é um equívoco dizer que há mais música do que história. A quantidade de faixas, aliás, é questionável, mas a direção musical de Delia Fischer soluciona o vasto repertório com agrupamentos em vários medleys. E são medleys inusitados: em uma mesma performance, há Rosana, Titãs e Gonzaguinha, assim, coladinhos – e fica bom (veja um vídeo aqui). O público delira ao reconhecer no palco os personagens conhecidos. Fábio Jr. (interpretado por Chris Penna, de “Samba Futebol Clube”) é ovacionado assim que entoa a primeira nota, de uma maneira impressionante.

ENTREVISTA: “Tenho uma liberdade de criação muito grande”, diz Leo Bahia

São 22 atores em cena, mas tudo ocorre em volta dos protagonistas – Leo Bahia (de “Ópera do Malandro”), carismático e cativante no primeiro ato, e Stepan Nercessian (de volta ao teatro após dez anos de afastamento), dividindo opiniões no segundo ato. Chacrinha, o real, não cantava – era um apresentador, um animador, e não tinha por quê – mas Chacrinha, o personagem do musical, se aventura, por razões óbvias. O problema é que Stepan, o intérprete, não canta, e não deveria mesmo. Os poucos momentos em que ele solta a voz não são bons. Os números se salvam justamente pelo elenco jovem, que faz tanta coisa acontecer que o público releva. Alguns nomes merecem destaque: Erika Riba (de “Paletó de lamê”) quando faz Clara Nunes de maneira encantadora; Livia Dabarian (de “Rita, o Musical”), que explora com habilidade o papel de Rita Cadillac e seu solo; Mateus Ribeiro (de “Crazy For You”), que se sobressai nos números de dança; e Mariana Gallindo (de “Crazy For You”), que impressiona com seu canto e tem um ótimo personagem em mãos, Elke Maravilha.

Encontro de duas fases: Chacrinha maduro e Abelardo jovem (Fotos: Juliana Cerdeira)
Encontro de duas fases: Chacrinha maduro e Abelardo jovem (Fotos: Juliana Cerdeira)

O que é mais elogiável, porém, é o trabalho da equipe criativa, que conseguiu dar vida a “dois planos sequência” completamente diferentes. Repete-se: é como dois espetáculos em um. Gringo Cardia (direção de arte e cenografia), Alonso Barros (coreografia e direção de movimento), Claudia Kopke (figurino), Martin Macias (visagismo) e Paulo Cesar Medeiros (desenho de luz) são os responsáveis por tornar possíveis, independentes, diversos e inusitados os dois atos dessa superprodução.

“Chacrinha – O Musical” encerra uma trilogia genuinamente nacional da Aventura Entretenimento chamada “Uma Aventura Brasileira” (completada por “Elis, a Musical” e “Se Eu Fosse Você, o Musical”). Sem desmerecer as outras duas peças, é possível afirmar que essa é a ‘mais brasileira’ delas, pela diversidade musical, de sotaques, de ambientes, de culturas, de personagens, enfim. É algo que a biografia do Chacrinha proporciona por si só, certamente, mas também é um mergulho específico da equipe desse espetáculo. É entretenimento puro, mas sem disfarce e de qualidade.

SERVIÇO
Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, s/nº, Centro. Telefone: 2332-9257.
Dias e horários: 5ª, às 19h; 6ª, às 20h; sábado, às 16h e às 20h e domingo, às 19h.
Ingresso: 5ª e 6ª: R$ 50 (balcão simples), R$ 80 (balcão nobre) e R$ 100 (plateia). Sáb. e dom.: R$ 50 (balcão simples), R$ 100 (balcão nobre) e R$ 120 (plateia).
Duração: 2h15 (com intervalo)
Classificação etária: 12 anos
Até 1º de março

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.