(Foto: Divulgação)
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Não é difícil imaginar Danielle Winits sensualizando de peruca platinada, pinta falsa acima da boca, vestido branco esvoaçante e fala caricatamente dengosa, quando se ouve que ela está interpretando Marilyn Monroe (1926-1962) na peça “Depois do Amor”, em cartaz no Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea. A imagem da sex symbol atemporal, ícone da cultura pop, de alguma maneira, casa com tudo que se conhece da brasileira. Sua escalação faz sentido, não causa surpresa e é recebida quase como uma obviedade. Mas o que Danielle mostra no palco não tem absolutamente nada a ver com a cena de Marilyn em “O Pecado Mora ao Lado” (1955), quando o vestido levanta por conta da saída de ventilação do metrô.

– Essa é a peça mais visceral que já fiz, em termos de espetáculo. Eu considero todos meus trabalhos da mesma forma, mas esse, pelo tour de force emocional, eu acho que tem tirado de mim algo que eu nunca dei no teatro. Talvez as pessoas esperem que seja mais uma coisa cheia de glamour, e não é bem isso. – diz ao Teatro em Cena – Acredito que cada atriz que faz a Marilyn tem a sua versão, o seu olhar, né? Não acho que o mais importante é a voz, essa coisa de ser igual… porque a gente tem muito mais a voz dela em filmes do que a voz dela como pessoa, no dia a dia. Eu me detive, e acredito que seja muito mais interessante me deter, nas coisas que eu tenho como base, que são os diários dela, o que ela escreveu, os sentimentos dela, as aflições, os sonhos. Procurei ir muito mais por esse lado do que pelo estereótipo.

“Depois do Amor” é mais sobre a Marilyn mulher do que a Marilyn celebridade. Ou, como Danielle gosta de dizer, mais sobre Norma Jeane (verdadeiro nome da Marilyn). “A peça disseca a mulher por trás do mito, e isso pra mim é o mais interessante do espetáculo: conseguir chegar na vulnerabilidade, na fragilidade, na retirada de máscara do ícone”, explica. O espetáculo se passa em 1962 e mostra a atriz de Hollywood em casa, meses antes de morrer, fazendo uma prova de figurinos para “Something’s Got To Give”, que viria a ser seu último filme, inacabado. É uma ficção de bastidores, baseada em fatos reais: Marilyn havia faltado os 16 primeiros dias de filmagens, deixando a produção enlouquecida. Alegando estar doente e ter emagrecido, ela recebe a assistente do estilista Jean Louis em sua residência para os ajustes nos vestidos que usaria no longa do cineasta George Cukor (1899-1983). A assistente em questão, interpretada por Maria Eduarda de Carvalho (de “Atrás da Porta”), é uma amiga que ela não via há dez anos – desde que se casou com o namorado dela, o jogador de beisebol Joe DiMaggio (1914-1999), com quem ficou por meros nove meses. A peça usa esse reencontro para explorar a bebedeira, a insegurança, a depressão e as frustrações de Marilyn Monroe, traçando um aprofundamento de sua fragilidade emocional.

(Foto: Divulgação)
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O espetáculo tem texto de Fernando Duarte e direção de Marília Pêra (1943-2015), mesma dupla de “Callas”. Esse foi o último trabalho de Marília no teatro, e o convite para que Danielle interpretasse Marilyn partiu dela. As duas conviveram por dois meses nos ensaios, período em que Marília já estava bastante enfraquecida por conta do câncer. No terceiro mês, Fernando Philbert assumiu a função – e Danielle é só elogios a ele também, dizendo que quer voltar a ser dirigida por Fernando mais vezes. Ele costurou tudo que Marília havia feito, mantendo o espetáculo como ela queria. Marília só não conseguiu ver o cenário pronto.

– Foi um processo muito especial, de vida mesmo, porque ela estava muito viva, na labuta, no batente, uma guerreira mesmo, dando uma verdadeira lição mesmo no final da vida dela. Ela teve tempo de me passar muita coisa. Pra mim, a Marília é uma das maiores atrizes do mundo. Uma atriz completa: uma atriz de teatro, de cinema, de TV, uma atriz que cantava, que dançava, enfim. Ela é atemporal. Tem pessoas que são eternas e a obra dela é eterna. Foi um processo muito rico para mim, e acho que para ela também, porque mesmo no final da vida, estava exercendo seu ofício, como mais gostava, dando sua contribuição para o teatro.

Muito envolvida com o espetáculo, Danielle acabou se tornando produtora associada – função que já havia exercido em “Amo-te” (2005) e “Xanadu” (2012). Ela diz que produz quando sente que ser só atriz não basta. Esse é um lado que pouca gente conhece, embora detalhes de sua vida não escapem aos olhos do público. Prato cheio para revistas e sites de fofoca, Danielle já posou nua duas vezes (quando não se mandava nudes e isso ainda tinha algum glamour), foi rainha de bateria de diferentes escolas de samba, por anos protagonizou um troca-troca de namorados famosos, teve dois casamentos acompanhados pela mídia, e um deles durou menos de quatro meses (com Jonatas Faro), batendo o recorde da Marilyn com Joe. Uma simples busca no Google também mostra que, como a estrela de Hollywood, a brasileira não pisa na rua sem registro dos paparazzi. Suas fotos na praia, com os filhos Noah, do primeiro casamento, e Guy, do segundo, são recorrentes. Sex symbol entregue como entretenimento para o povo: podia ser mais Marilyn? A atriz, porém, não vê semelhanças entre elas.

Casamento de Marilyn Monroe com Joe DiMaggi durou nove meses. O de Danielle Winits com Jonatas Faro foi menor: menos de quatro meses (Fotos: Reprodução)
Casamento de Marilyn Monroe com Joe DiMaggi durou nove meses. O de Danielle Winits com Jonatas Faro foi menor: menos de quatro meses (Fotos: Reprodução)
Capas da Playboy: Marilyn Monroe e Danielle Winits (Fotos: Reprodução)
Capas da Playboy: Marilyn Monroe e Danielle Winits (Fotos: Reprodução)

– Isso é uma visão que vem de fora. Ninguém está dentro de casa, ninguém está dentro de mim, da Danielle mulher, enfim… Não é que não tenha um pouco de Marilyn. Todo mundo tem um pouco. A mulher tem essa visão mais romantizada da vida, mas não necessariamente são todas tão à flor da pele quanto uma Marilyn era. – pondera a atriz, que faz uma análise mais psicológica do que midiática da Marilyn após ter lido duas biografias, assistido a documentários e se debruçado sob uma vasta pesquisa – O ônus da fama já me incomodou durante um tempo, mas depois não. Depois eu acho que entendi que faz parte da vida de todo artista, alguns de uma forma, outros de outra. Mas isso não impede de eu gostar do meu trabalho, de ser esse meu ofício, e vir todo dia aqui de quinta a domingo fazer minha peça de teatro. É meu trabalho. Estou mais preocupada com isso do que com o que os outros vão pensar.

Da mesma maneira que há Marilyn e Norma Jean, o discurso da brasileira separa Danielle Winits, a celebridade, da “Danielle mulher”. Durante a elaboração dessa reportagem, o repórter pôde ver as duas. Essa entrevista ocorreu antes da peça, em um corredor do Shopping da Gávea, com a Danielle, mulher, entre espirros. Usando um minishort jeans e uma blusinha, ela carregava o celular na mão, tirava fotos do filho Guy com o personagem Peter Pan da sessão vespertina do teatro, e levava o menino de nove anos ao parquinho com a babá. Mãe. Sem chamar muita atenção, foi interrompida com pedido de selfies com fãs apenas duas vezes. No dia seguinte, toda produzida, ela comparecia a um evento no Copacabana Palace, com um vestido longo da Ralph Lauren, decotão, perna de fora, maquiagem de estrela e bolsinha de mão dourada: impossível não chamar atenção. Na porta do hotel, uma aglomeração gritava seu nome e, dentro, os fotógrafos disputavam os melhores ângulos dela.

Danielle Winits em premiação no Copacabana Palace (Foto: Leonardo Torres)
Danielle Winits em premiação no Copacabana Palace (Foto: Leonardo Torres)

Danielle ficou famosa pelos personagens sensuais. Basta dizer que sua estreia na TV foi em “Sex Appeal”, aos 20 anos. Personagens como Alicinha, de “Corpo Dourado” (1998), Tati, de “Uga Uga” (2000), Manoela, de “O Quinto dos Infernos (2002), e Marisol, de “Kubanacan” (2003), sempre exploraram esse seu lado. Outro ponto em comum com Marilyn? A americana também ficou muito tempo restrita ao mesmo papel em diferentes produções. Foi no teatro, principalmente com musicais como “Chicago” (2005) e “Hairspray” (2009), que Danielle Winits conseguiu se desvencilhar do estereótipo e mostrar outras facetas. Isso lhe rendeu, também, papeis diferentes na TV, como a vilã Sandra, de “Páginas da Vida” (2006), e a médica Amarilys, de “Amor à Vida” (2013).

– Acho que toda atriz que começa muito nova tem, de certa forma, uma resistência a ser superada. Eu comecei a trabalhar era adolescente, fazia novela, menina na praia… né? Mas eu fazia teatro desde os meus 17 anos. Eu gosto do meu trabalho, porque também tenho prazer nele, e acho que fui de acordo com as minhas vontades. Não me deixei levar só pelas coisas que as pessoas gostariam de me ver fazendo. Não. Eu amo teatro, sou uma atriz de musical também, e não quis ficar fazendo só televisão. – analisa – O teatro é a minha mola propulsora todos os dias, porque no teatro eu posso ter mais esse controle do que querer fazer, de como fazer, de como estar totalmente presente em todas as áreas, em todas as vertentes que compõe uma produção, e isso para mim é muito gratificante.

No ano passado, Danielle teve uma experiência como diretora na peça “A-Traídos” – algo que ela não descarta a possibilidade de explorar mais, caso apareçam convites. Seu foco, no entanto, é produzir: ela agora quer alçar voo para o cinema. Para 2016, ela procura o roteiro de um filme, além de analisar um convite para integrar o elenco de um musical teatral. Quando se dá conta de que fazem quatro anos desde “Xanadu”, ela fica surpresa. “Quatro anos? Tudo isso? Nossa… o tempo passa!”.

Em seguida, se tranquiliza e repete duas vezes que “o ano está só começando”. “Depois do Amor” fica em cartaz no Teatro Vannucci pelo menos até 6 de março. Depois, ela quer fazer temporada em São Paulo e viajar pelo país. “Quero que essa peça dê bastante certo, então ainda tem bastante tempo aí. Esse, com certeza, é um espetáculo diferenciado”, conclui.

(Foto: Divulgação)
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SERVIÇO: qui a sáb, 21h30; dom, 20h30. R$ 80. Classificação: 12 anos. De 7 de janeiro até 6 de março. Teatro Vannucci – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52, 3º andar – Gávea. Tel: 2274-7246.