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“Caio e Léo” é o nome do espetáculo que o Outro Grupo de Teatro, de Fortaleza, trouxe ao Rio de Janeiro. Com dois atores no elenco, Ari Areia e Tavares Neto, a peça tem como principal mérito a discussão involuntária que propõe sobre o que é ou não artístico. É isso que sobra no fim da encenação, que contem cenas explícitas de masturbação e sexo oral entre os atores. O que é arte? O que é pornográfico? O que é soft porn? O que é soft? Vale repensar todas essas definições. Teatro não é arte, por si só. É um meio de se alcançá-la. Um espetáculo teatral pode ser uma manifestação artística, como geralmente se tenta, mas também pode passar longe disso.

(Foto: Gabi Gomes)
(Foto: Gabi Gomes)

Na peça, Léo é um fotógrafo e Caio é um consultor de planejamento (segundo consta no programa). Os dois se conhecem por acaso em um píer e iniciam uma relação complexa, com sexo, mas sem beijo, porque Caio ainda não tem sua sexualidade bem resolvida e namora uma menina. O argumento é simples, até clichê, e a trama não vai muito além disso. A dramaturgia de Rafael Martins (de “Uma de Duas – A Vida Comum de Lucylady”) é rasa e parece construída em torno do desejo de levar ao palco as cenas citadas no início deste texto. O sexo não está em função do espetáculo, e sim o contrário, o que se revela problemático. E este não é um julgamento puritano.

A masturbação e, principalmente, o sexo oral sequer são cenas esteticamente belas. Se fosse cinema, não poderia ser igualado a “Ninfomaníaca” (2014) ou “Azul É a Cor Mais Quente” (2013). O diretor do espetáculo, Yuri Yamamoto (de “Uma Vida de Duas – A Vida Comum de Lucylady”), não alcança o grau de erotismo dessas obras cinematográficas, porque suas cenas não são sensuais nem excitantes. São medicamente clínicas, sem vida e, ainda assim, o cerne da peça. Elas não têm nada de teatral, e isso fica nítido na sensação de pausa na encenação – a pausa para o sexo, a pausa do sexo.

Yamamoto também assina o cenário, que se resume a uma plataforma de madeira imitando a parte superior do píer, a sonopolastia, essencial para estabelecer a proximidade do mar, e os figurinos, que dão vida à cena. Mas o valor estético vem da iluminação de Walter Façanha, com um trabalho voltado para o contraste entre claro e escuro, muitas sombras, e objetos cênicos como lanternas e fósforos. Confira um vídeo:

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. R$ 20. 55 min. Classificação: 16 anos. Até 23 de março. Sede das Cias – Rua Manuel Carneiro, 12 – Escadaria Selarón – Lapa. Tel: 2137-1271.