O espetáculo “Pequenas Biografias”, que termina sua temporada nesta semana, é o segundo texto metalinguístico do dramaturgo e diretor Marcio Freitas. O anterior foi “Sem Falsidades”, no qual cinco atrizes davam vida justamente à conversa de jovens atrizes sobre os primeiros contatos com o teatro. Eram relatos narrados como autobiográficos, embora não fossem das artistas que estavam em cena. Eram verídicos, resultantes de entrevistas com outras atrizes, mas não delas. Em “Pequenas Biografias”, é parecido. Seis atores estão em cena para contar a história… de outros atores, que pesquisam sobre a vida de pessoas diversas (uma cantora, um colega de infância, uma vizinha…). Os relatos também não são de todos os atores que estão em cena, mas foram capturados em uma pesquisa real, igual à cênica, com um grupo de artistas. Difícil de entender? Marcio explica melhor.

(Foto: Divulgação)
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Ele deu início ao projeto entre 2011 e 2012, incitando cada ator a pesquisar independentemente seu objeto, que poderia ser qualquer personagem a gosto. Nos encontros frequentes, ele supervisionava o andamento e gravava as conversas em áudio. Foi um processo que durou muito tempo, e serviu de base para o roteiro semificcional. “Nem todos os atores que estiveram no processo estão em cena, nem todos os atores em cena estiveram no processo. Quando os atores falavam das suas pesquisas, acabavam falando muito de si, e o que aparece em cena é essa mistura entre a vida dos atores e os objetos que eles escolheram”.

É nessa relação entre pesquisador e pesquisado que se baseia o texto. Uma personagem, por exemplo, fala de seu incômodo com a figura de um músico proeminente, tentando esconder o quanto tal história torna visível um segredo seu. Outro revira os restos de sua relação com o irmão mais velho, investigando o choque da idealização do passado com os eventos presentes. “Esse passo para fora acaba se perdendo e virando um passo para dentro, ou seja, a tentativa de biografar acaba apontando de volta para o sujeito biógrafo”, Marcio tenta explicar ao Teatro em Cena, em entrevista realizada por e-mail. “Mas sempre investigando aquilo que falha, que fracassa, que não dá certo, que é algo que me interessa bastante”.

(Foto: Divulgação)
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Com a encenação reproduzindo em parte o que aconteceu nos encontros gravados em áudio, ainda que de maneira ficcional, o dramaturgo visa problematizar a imagem documental. “Quis falar disso, tocando em questões como memória e esquecimento. Mas, além disso, a peça tem uma enxurrada de pequenas coisas que se ligam, algumas fortemente e outras mais sutilmente”, aponta. “Meu desejo era construir uma rede de sentidos, que tivesse coerência sem determinar leituras fechadas, que fizesse o espectador se perder nas imagens e também desse a ele pontos de ancoragem para leituras interessantes e talvez inusitadas”.

Em “Sem Falsidades e “Pequenas Biografias”, Marcio Freitas dirige seus próprios textos. Mas é inegável que, na peça atual, houve uma abertura maior, e enorme, ao processo colaborativo, graças às pesquisas dos atores. “Algumas camadas são muito abertas para o que cada um tem a dizer ou propor, tendendo quase ao caótico”. Mas ele ressalta que ninguém está em cena dizendo exatamente o que falou nas reuniões. É um reprocessamento rigoroso de formação cênica. “Ao mesmo tempo, é o ator revivendo suas próprias questões. É interessante ver o que sobra desse choque. Em cena, o público não vê exatamente a verdade dos atores. Não é a ilusão de verdade que buscamos, mas uma verdade reprocessada. É uma imagem estranha, que induz à estranheza”.

Com Mariana Barcelos, Marina Hodecker, Paula Lanziani (as três de “Sem Falsidades”), Bruno Santos Augusto, Marcéli Torquato (de “Não Há Melhor Lugar do Que a Nossa Casa”), Patrícia Ubeda (de “Aventura do Pedro”) e no elenco, a temporada termina no dia 17 no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea. As sessões são quarta e quinta, às 20h, e os ingressos custam R$ 20.