resenha-2estrelasemeia

Montada no Rio pelo diretor Ivan Sugahara (de “Beija-me Como Nos Livros”), a peça “El Pánico” foi escrita pelo dramaturgo argentino Rafael Spregelburd como parte de um conjunto de textos teatrais que visam “atualizar” os sete pecados capitais. Os outros são “A Inapetência”, “A Extravagância”, “A Paranoia”, “A Teimosia”, “A Modéstia” e “A Estupidez”, também montada pelo mesmo diretor por aqui em 2011. Em “El Pánico”, estreada originalmente em Buenos Aires em 2002, no auge da crise financeira do país, trata-se do medo. A obra põe personagens vivos e mortos lado a lado – os mortos com medo da consciência do falecimento e os vivos com medo de absolutamente tudo. O programa do espetáculo aponta a intenção de parodiar filmes de terror de baixo orçamento, explorando elementos dessa linguagem para provocar o riso. É uma comédia leve.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Na história, uma mãe (Kelzy Ecard, de “Incêndios”) e seus dois filhos de 20 e tantos anos (Paulo Verlings, de “Conselho de Classe”, e Elisa Pinheiro, de “Bonitinha, Mas Ordinária”) fazem de tudo para conseguir resgatar a herança do marido dela (Marcio Machado, de “Cock – Briga de Galo”), falecido na casa da amante (Pâmela Côto, de “Vida, o Musical”). Ele deixou suas economias no cofre de um banco, mas eles não sabem onde está a chave. Para isso, recorrem desde à gerente do banco (Debora Lamm, de “Infância, Tiros e Plumas”) e seus obstáculos burocráticos até uma paranormal (Suzana Nascimento, de “Calango Deu!”) e uma psicóloga. Essa história central é permeada por outras, de personagens secundários (são 17 no total), com cenas divertidas e engraçadas. Ninguém vê – só a paranormal – mas o homem morto está transitando por eles todos em tempo integral, sem entender porque teimam em ignorá-lo.

A direção optou por encenar a história em portunhol, por acreditar que “muito de sua comicidade está diretamente ligada ao acento espanhol, ao melodrama intrínseco à sua sonoridade”. Para quem domina o idioma, cansa ouvir um espetáculo inteiro nem lá nem cá. Considerar o espanhol engraçado, por si só, já é um caminho bastante questionável e, em cena, revela-se enfadonho, porque o “portunhol”, como elemento cômico, excede em cenas por ventura exageradas por si só. Mas essa tem sido uma tendência de Ivan Sugahara: o risco da língua. Em seu último espetáculo com a Cia. Os Dezequilibrados, “Beija-me Como nos Livros”, ele pôs os atores para dialogarem em um idiota inexistente, inventado por ele próprio, o “gromelô”.

(Foto: Felipe Pilotto)
(Foto: Felipe Pilotto)

Com o adendo do “portunhol”, a obra de Spregelburd por vezes se torna o alvo de suas próprias sátiras. A linha entre a paródia e a adesão a uma linguagem é muito tênue. O texto abre várias subvertentes, que nunca fecha, e resulta em um apunhado de cenas mais ou menos hilárias e jogadas ao acaso. O espetáculo dura 80 minutos, mas parece demorar mais para acabar, apesar das boas atuações. O elenco, sem sombra de dúvidas qualificado, dá o que é possível dentro do proposto, com destaque para Debora Lamm e Suzana Nascimento.

Sugahara fala de inspiração em personagens de Almodóvar neste trabalho, e isso é identificado no colorido dos figurinos criados por Joana Lima, que dão o visual do besteirol. O cenário de André Sanches é apoiado em uma estrutura criativa de pano preto que, junto com a iluminação de Aurélio de Simoni, amplia o espaço para ilusão de um segundo andar da casa dos protagonistas. Quando estão na parte de cima, vê-se suas silhuetas contra o pano. É um ponto positivo para a montagem, porque mais colorido seria uma poluição.

O espectador consegue dar boas risadinhas ao longo da peça, sem nenhuma gargalhada propriamente dita, mas a história é fraca – como os filmes de terror de baixo orçamento, alvo de sua paródia.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 26 de novembro. Espaço Sesc – Teatro de Arena –Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.