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A nova produção da Cia. Brasileira de Teatro, de Curitiba, em parceria com a Renata Sorrah se chama “Krum”. É um texto do israelense Hanoch Levin, escrito nos anos 70, influenciado por Tchekhov e Beckett, e montado pela primeira vez no Brasil. Na trama, o personagem-título acaba de voltar para casa após uma temporada na Europa, onde não viu, não fez, não adquiriu e não encontrou nada do que buscava. De volta ao bairro de sua família, ele demonstra profunda insatisfação com a vida – não que lá fora estivesse melhor, afinal ele voltou. Mas a peça gira em torno dessa contradição e dessa insatisfação mal humorada. Todos querem algo que não têm.

(Foto: Reprodução / Daniela Dacorso)
(Foto: Reprodução / Daniela Dacorso)

A dramaturgia é um recorte da vida das pessoas do bairro onde ele mora, como uma crônica de cotidiano. Danilo Grangheia (de “Let’s Just Kiss & Say Goodbye”), o Krum, conduz a história com habilidade, mas não há uma grande trama. Sai-se do nada para o lugar nenhum. É um espetáculo de personagens, e de personagens ordinários. Há um homem, que “quando não está doente acha que está”, em profunda dúvida entre fazer exercícios de manhã ou de noite (interpretado impecavelmente por Ranieri Gonzalez, de “Esta Criança”), e uma mulher com problemas de autoestima, que se casa com ele apenas para não ficar sozinha (vivida por Inez Viana, de “Como É Cruel Viver Assim”, sempre uma ótima rouba-cena). E, claro, há o papel de Renata Sorrah (de “Esta Criança”), o grande chamariz para a plateia carioca.

Renata não é a protagonista, e até demora para fazer sua primeira entrada. Sua personagem é uma mulher submissa, humilhada, totalmente apaixonada por Krum. Ela tem um namorado (Rodrigo Ferrarini, de “Isso Te Interesa?”), mas o dispensa assim que seu grande amor volta para maltratá-la. Sua idade não é bem definida, mas ela é jovem – no mínimo uns 30 anos mais jovem do que sua intérprete. Mas Renata convence. Sua primeira cena é dançando em uma boate, onde ela estabelece o tom do papel e descarta qualquer problema de verossimilhança. O elenco conta ainda com mais cinco atores, todos excelentes.

A maior parte da encenação acontece sem elementos cenográficos. A iluminação de Nadja Naira e a trilha sonora de Felipe Storino são de suma importância. O espetáculo, na verdade, começa no escuro, ouvindo-se apenas a voz de Krum, o que é apenas uma prova da direção sensível e criativa de Marcio Abreu (de “Nômades”). Há muita meia-luz e muita escuridão, tanto é que se demora a perceber que “não há cenário”. A cenografia de Fernando Marés, inteligente, limita-se a quatro ventiladores de teto e cadeiras de cinema cerceando o palco. Frequentemente, os atores/personagens descem do palco e se sentam nas cadeiras colocadas à frente da plateia, como que juntando-se a ela e também assistindo à peça. Há esse flerte com o cinema e cada cena parece um frame. A iluminação consegue proporcionar verdadeiros enquadramentos, e a impressão é a de ver uma tela mesmo.

Quando a peça acaba, a sensação é a de ter visto muito… e muito pouco, ao mesmo tempo. Para se ter uma noção, há duas mortes, dois casamentos, algumas cenas de nudez, muitas dúvidas, muitas discussões. Não é fácil fazer um resumo óbvio da história. Uma tentativa arriscada é dizer que todas aquelas pessoas comuns estão insatisfeitas, tentando e não conseguindo, e esperando mudanças na vida, enquanto a vida passa. Levando-se em consideração que Hanoch Levin viveu sete guerras, não é incompreensível sua redução da vida a uma repetição de ciclos, rituais e fracassos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 20. 120 min. Classificação: 16 anos. Até 26 de abril. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.