(Foto: Dedoc/Veja SP)

Se você está de olho nas redes sociais, notou que Roberto Alvim foi um nome muito comentado pela classe artística nos últimos dias. O diretor causou polêmica porque, após o anúncio de seu nome para um cargo na Secretaria Especial de Cultura do governo federal, ele fez um post no Facebook convocando currículos de “artistas alinhados aos valores conservadores”. No texto, disse: “estamos montando um grande banco de dados de artistas de teatro conservadores. (…) vamos criar uma máquina de guerra cultural!”. Guerra? Não pegou bem.

O post teve 3,5 mil reações na rede social: “curti”, “amei” e “haha” foram as mais frequentes. Ele recebeu mais de 900 comentários em resposta e foi compartilhado 1,3 mil vezes. Não tardou a haver respostas contrárias à sua postura. Artistas, em sua maioria, não são “conservadores”. Progressistas, inovadores, liberais, revolucionários, vanguardistas, renovadores e contemporâneos são adjetivos que tendem a fazer mais sentido – e a agradar mais. O texto de Roberto Alvim deu a entender que sua ação na secretaria federal seria restrita apenas aos artistas que convergissem com o “viés ideológico” do presidente Jair Bolsonaro. Os que divergem estariam de fora das políticas públicas.

Roberto Alvim e Bolsonaro (Reprodução/Facebook)

A Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR) emitiu um comunicado se posicionando: “a Constituição Brasileira garante o direito à liberdade política e cultural. (…) Portanto, qualquer manifestação do governo ou de membros do governo que demonstre ferir os princípios da República Federativa do Brasil deve ser tratada como demonstração de abuso de poder. Fazer uma convocação oficial de currículos de pessoas que se alinhem com o poder vigente é rasgar todos os compromissos de Estado assumidos com o povo brasileiro”.

A controvérsia começou ainda antes. Roberto Alvim só foi escalado para um cargo no governo depois de dizer que era vítima de “uma campanha difamatória feita por toda a classe artística brasileira” por conta de seu apoio a Jair Bolsonaro. O presidente ficou sabendo da tal “perseguição” e o convocou para uma reunião. Alvim saiu do Palácio do Planalto com a promessa de emprego. Cada vez mais, o diretor e dramaturgo verbaliza sobre uma polarização entre “arte de direita” e “arte de esquerda”.

(Foto: Reprodução)

Após a polêmica convocatória para artistas conservadores, ele fez outro post no Facebook. Neste, disse o seguinte: “quanto à ideia de ‘máquina de guerra cultural’ – o conceito se refere ao combate entre erigir OBRAS DE ATE [sic] contra DESTRUIR o conceito de obra de arte. Estou do lado de quem deseja ERIGÍ-LAS, é claro”. Antes, ele já havia publicado outra mensagem sobre o tema: “(…) arte de esquerda é DOUTRINAÇÃO de todos os espectadores; arte de direita é EMANCIPAÇÃO POÉTICA de cada espectador”.

O curioso é que Roberto Alvim era “de esquerda” até bem pouco tempo. Chegou a montar uma adaptação teatral do livro “Leite Derramado”, de Chico Buarque, cujo posicionamento político é de conhecimento público. Hoje em dia, ele se diz ex-amigo do cantor. Alvim se tornou cristão, conservador e eleitor de Bolsonaro após um tratamento para retirada de um tumor no intestino.