Chega ao Rio de Janeiro, pela primeira vez, o espetáculo baiano “Entre Nós”, que traz dois atores em cena, interpretando justamente dois atores, durante o processo de criação de uma história de amor gay. A peça metalinguística, escrita e dirigida por João Sanches (de “Eu Te Amo Mesmo Assim”), fará uma temporada de quinta a domingo entre os dias 13 e 29 deste mês no Teatro Dulcina, no Centro. Na trama, são discutidas questões como respeito e preconceito.

(Foto: Divulgação)
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Como a arte imita a vida (ou será que é o contrário?), o espetáculo também foi idealizado por atores – no caso, Igor Epifânio (de “Esperando Godot”) e Anderson Dy Souza (“As Velhas”). Eles tiveram a ideia, escreveram o projeto, captaram os recursos e produziram em Salvador. “Queriam fazer um ‘espetáculo-debate’ sobre diversidade, que fosse apresentado em teatros, mas também em locais alternativos, como salas de aula, praças, auditórios”, o dramaturgo explica ao Teatro em Cena. Deu certo: a peça venceu três categorias do Prêmio Braskem de Teatro, e rodou várias cidades, não só da Bahia, como do Brasil e fora dele. Eles encenaram uma versão em espanhol em Miami.

Segundo João, o texto não busca apontar respostas, mas levantar perguntas de uma maneira leve e bem humorada. A escolha por personagens atores, dispostos a encenar uma trama gay, mas repleto de preconceitos mascarados não foi desproposita. “É uma ironia. A estratégia rendeu muitas piadas e ganchos para reflexão”, pontua o autor. “Muitas vezes, me deparo com pessoas que cobram dos outros uma postura que elas não costumam ter. Acho que todo mundo tem um pouco disso”.

Metalinguagem e João Falcão

O dramaturgo é parceiro do João Falcão (de “Gonzagão – A Lenda”), com quem trabalhou como colaborador em “Clandestinos”. O espetáculo em questão também era metalinguístico: tratava da seleção de elenco para uma peça. “Uma Noite na Lua”, outro texto do Falcão, acompanha a madrugada de um autor em bloqueio criativo. Também metalinguística. Mas João Sanches não vê isso como um reflexo direto na sua obra. “A metalinguagem, especificamente, não. Ela é muito recorrente no meu trabalho e, acredito, nas dramaturgias contemporâneas de uma maneira geral”.

As influências do João Falcão – ele não as nega, de maneira nenhuma – são outras. “Acho que a dinâmica e o ritmo dos diálogos, o destaque dado ao trabalho dos atores, a musicalidade, o humor, entre outros aspectos da peça [Entre Nós] têm influências diretas de João”, afirma o baiano que, no espetáculo “Eu Te Amo Mesmo Assim”, contou com supervisão do xará. “Sem dúvida, posso dizer que meu trabalho é reflexo da minha experiência com João Falcão, como também com diretores baianos, como Fernando Guerreiro, Paulo Dourado e Márcio Meirelles”.

(Foto: Divulgação)
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Na opinião dele, o espetáculo tem tudo para se comunicar com a plateia carioca, da mesma maneira que fez sucesso em outras partes do Brasil. Em Mato Grosso do Sul, no entanto, houve certa polêmica, com o veto da Secretaria de Educação para apresentações em escolas estudais. Ao se apresentarem com casa cheia no teatro Aracy Balabanian, em Campo Grande, os atores reclamaram. O motivo do veto seria a temática gay.

João Sanches destaca a importância de abordar a questão, citando a violência contra homossexuais e a não-criminalização da homofobia. “Apresentamos diferentes perspectivas e questionamentos, sempre com muito humor e ironia. A plateia fica livre para tirar suas próprias conclusões”, ressalta. “Inclusive, temos duas opções de final para o espetáculo. Toda noite, é a plateia eu decide como a história termina”.

Serviço
Teatro Dulcina
Rua Alcindo Guanabara – 17 – Centro. Telefone: 2240-4879.
Temporada: de 13 a 29 de junho.
Dias e horários: quinta a domingo, às 19h.
Ingresso: R$ 20h.
Duração: 60 min.
Classificação: livre.