Meses após a estreia em São Paulo, o Rio de Janeiro também está podendo assistir ao retorno do ator Ney Latorraca (de “A Escola do Escândalo”) aos palcos, com o espetáculo “Entredentes”. Escrito e dirigido por Gerald Thomas (de “Gargolios”), o texto é conscientemente delirante e se propõe a fazer uma crítica sociopolítica do que se vê no Brasil e no mundo. Mas é difícil acompanhar – e há até uma piada referente a isso em cena. Em determinado momento, Ney (o personagem, que também tem esse nome) diz: “Não estou entendendo mais nada! Nem eu!”. A plateia vem abaixo, porque se identifica.

(Foto: Rafael Pimenta)
(Foto: Rafael Pimenta)

É realmente muito confuso, tudo. Não tem começo, meio e fim, como gosta o dramaturgo. A peça se inicia com Ney e Edi Botelho (de “A Escola do Escândalo”) vestidos de astronautas e batendo papo sobre temática incompreensível. O público se perde na maior parte do tempo e é resgatado por um ou outro bom momento que permeia a dramaturgia. Em seguida, eles trocam de roupa e adereços, vão para o Muro das Lamentações (representado por um enorme painel com a figura de uma vagina), e revela-se que Ney é um judeu com dons mediúnicos. Tudo fica ainda mais complexo com as incorporações de santo do personagem (engraçadas, é verdade). Os elementos aparecem e desaparecem de maneira aleatória, e às vezes os atores parecem sair de cena e analisar a encenação de fora, como se fossem eles mesmos. Delirante. Conceitual, mas não exatamente cult. Esburacado, mas não exatamente inacessível.

O espectador tem que se esforçar para amarrar o material que lhe é fornecido, sem garantia de sucesso nesta tarefa. Para completar, há ainda uma personagem feminina, interpretada pela portuguesa Maria de Lima (de “Gargolios”). Ela aparece cambaleante com um pé de salto alto e o outro descalço, meio over, meio gritante e embola tudo ainda mais. Ela canta, dança e proporciona as cenas mais “WTF”, com o perdão da expressão. Mas, honra seja feita, também é um prazer ouvir críticas ao Brasil vindas de um sotaque lusitano. É irônico, ácido e colonizador.

Ney Latorraca em "Entredentes" (Foto: Divulgação)
Ney Latorraca em “Entredentes” (Foto: Divulgação)

A sensação, ao sair do teatro, é de não ter absorvido tudo. De não ter entendido nada. É um espetáculo com outros signos, outra comunicação. Subversivo. Cenário (de Gerald Thomas e Lu Bueno), figurino (de Lu Bueno) e iluminação (de Gerald Thomas e Wagner Pinto), tudo tem um quê de tosco, de desdém a qualquer expectativa regular. O grande saldo de “Entredentes” acaba sendo, a olho nu, a volta de Ney.

A temporada vai até dia 2 de novembro no Teatro Sesc Ginástico, no Centro, com ingressos a R$ 20 (ou R$ 5, no caso de sócios do Sesc). As sessões vão de quinta a domingo, sempre às 19h. A classificação é de 16 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.