Não é só Jullie que emendou a participação no “The Voice Brasil” em musicais teatrais. A cantora Luciana Balby, que participou da mesma temporada do reality show, seguiu caminho similar e se tornou um dos destaques de “André Rebouças – O Engenheiro Negro da Liberdade”, musical encenado na sede da Ação da Cidadania, na Saúde. A artista, que foi eliminada na terceira etapa da disputa no reality show, cresce no espetáculo, oferecendo interpretações fortes para canções de Carlos Gomes e de José Miguel da Trindade. Além disso, revela um desconhecido talento para atriz, tanto no papel de Princesa Isabel quanto no de uma cigana paraguaia que perdeu o filho na guerra – neste segundo, particularmente tocante.

Luciana Balby em dois momentos do espetáculo (Fotos: Douglas Oliveira)
Luciana Balby em dois momentos do espetáculo (Fotos: Douglas Oliveira)

O espetáculo, ambientado no século XIX, conta a história real do engenheiro André Rebouças, que teve uma trajetória curiosa. Apesar de negro, ele era livre e desfrutava de certa posição social no Brasil Imperial, circulando entre a nobreza branca e oferecendo bailes para a elite. Pouco convivia com os negros escravizados, alheio ao sofrimento e à humilhação diária da escravatura. Ele só aderiu à luta pela abolição após uma viagem aos Estados Unidos segregado, onde sentiu na pele a discriminação racial. É uma trama improvável de ser contada, porque ele não foi um dos heróis desse movimento. Mas os dramaturgos José Miguel da Trindade e André Luiz Câmara (de “Menino No Meio da Rua), que assina a direção, conseguem traçar algo convincente e envolvente – apesar de extenso.

A montagem é humilde, mas sensível e forte ao mesmo tempo, pretensiosa pela sua mensagem. O cenário (de Rosa Magalhães) é formado basicamente por escadas e andaimes, e seu ponto forte é um painel com projeção audiovisual. Os figurinos (de Giovanni Targa) são suficientes para caracterizar cada personagem. O musical cresce com as canções originais (assinadas pelos dramaturgos e Caio Cezar), algo raro e corajoso no panorama atual do teatro musical. As músicas são belíssimas: “Canção das Vivandeiras” e “Meu Povo, Povo Negro” são exemplos. Outro momento para prestar atenção é a performance ambientada nos Estados Unidos, com trabalho eficaz de direção musical (de Caio Cezar) e direção de movimento (de Duda Maia).

andré rebouças musical
(Foto: Douglas Oliveira)

São 13 atores em cena – com destaque para Arthur Rozas (de “O Mágico de Oz”), Gabriela Luiz (de “A Galinha Pintadinha”), Carlos Maia e Leandro Vieira – e mais quatro músicos na banda. Todos demonstram muita vontade de contar essa história e, na cena final, na qual há uma chamada de atenção para a realidade contemporânea, parece se misturar quem fala, de uma maneira positiva: personagens e atores.

O musical terminou sua temporada, com entrada franca, na Ação da Cidadania no fim de novembro. Mas há a possibilidade de retorno em 2015. Qualquer novidade será informada pelo Teatro em Cena.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.