Fazendo História compara métodos educacionais em colégio inglês

Texto premiado de Alan Bennett, adaptado para o cinema em 2006, “Fazendo História” (The History Boys, no original) ganhou uma montagem brasileira. O espetáculo é inspirado na própria experiência do autor como estudante e professor de Oxford, e conta a história de um grupo de alunos (todos homens) em preparação para os exames de admissão das universidades. Visando Oxford e Cambridge, os estudantes fazem parte de uma turma especial, em ritmo de vestibular, e conta com dois professores de História (daí o título) com didáticas antagônicas. Hector (Xando Graça, de “12 Homens e uma Sentença”) propõe uma aula mais livre e artística, alheio à pressão do preparatório, com perspectiva de lições de vida. Os alunos o adoram, mas não o levam a sério. Irwin (Mouhamed Harfouch, de “E Aí, Comeu?”), mais jovem, é mais rígido e instiga os estudantes a questionarem a história de maneira consciente. Eles, a princípio, resistem, mas depois o compreendem. Ambos os métodos se complementam.

(Foto: Divulgação)

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A dramaturgia põe em questão valores morais – sem reducionismo a bem x mal – e reflete sobre os métodos educacionais. Tanto Hector quanto Irwin fogem do ensino descompromissado, mas um opta pela ideologia artística e o outro pela mercadológica. O texto, consistente e aprofundado, é bem humorado e extremamente… inglês, mas brasileiros conseguem se identificar. O universo estudantil também é abordado sob pilares como religião (pelo aluno vivido por André Arteche, da novela “Lado a Lado”), sexualidade (aluno vivido por Hugo Kerth, de “The Book of Mormon”), sexismo (professora interpretada Nedira Campos, de “Carmem, o It Brasileiro”), abuso sexual (Xando Graça) e hipocrisia (diretor interpretado por Edmundo Lippi, de “Auto da Compadecida”), comuns à nossa sociedade. Alunos e professores empurram os limites ao máximo no que concerne ao clima de sedução adequado para tal relação.

O cenário (de José Dias) é mínimo: o piano na lateral e cadeiras suficientes para que todos os personagens se sentem, reproduzindo a sala de aula. Nada mais é necessário. Os figurinos (de Ney Madeira) são eficientes em caracterizar o universo inglês, sem deixar esquecer onde a trama é ambientada. Só o uniforme do André Arteche que parece um tamanho menor, e ajuda a lembrar que ele não tem perfil para um personagem mais de dez anos mais jovem – um rapaz saindo do colégio. O ator é competente, mas não indicado.

Mouhamed Harfouch é professor em "Fazendo História" (Foto: Guga Melgar)

Mouhamed Harfouch é professor em “Fazendo História” (Foto: Guga Melgar)

Fora de cena, a atriz Gláucia Rodrigues (de “O Auto da Compadecida”) estreia bem na função de diretora, imprimindo um ritmo estável e agradável à encenação. As cenas de André Arteche tocando piano e Hugo Kerth cantando são interlúdios bem trabalhados, sensíveis e elevam o espetáculo. O elenco é todo elogiável. Xando Graça e Mouhamed Harfouch, os professores, estão especialmente naturais e interessantes. Também vale prestar atenção ao Renato Góes (de “Adão, Eva e Mais uns Caras”), como o aluno provocador, e ao Hugo Kerth, como o estudante em descoberta de sua homossexualidade. Esse, aliás, é o segundo adolescente gay seguido do Hugo no teatro, e ele ganha credibilidade por conseguir diferenciá-los claramente. Em contrapartida, Rafael Canedo (de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”) gera algum incômodo em quem viu seu espetáculo anterior, porque lembra, por mais vezes do que o relevável, o autista de outrora.

As observações, porém, não chegam a prejudicar o espetáculo. “Fazendo História” é altamente recomendável, principalmente nesta época do ano, em que estudantes do país inteiro disputam décimos nas provas de vestibular visando vagas nas universidades públicas. A peça está no início de sua temporada, que vai até 20 de dezembro no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Centro. As sessões vão de quarta a sábado, sempre às 19h, com ingressos a R$ 40 (quarta) e R$ 50 (quinta a sábado). A classificação indicativa é de 12 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.