A partir da próxima quinta (26/5), a atriz Fernanda Nobre (de “Gato Branco”) passará a interpretar um dos personagens mais densos de sua carreira. É Dorra, grávida após ser estuprada por cinco homens durante a Guerra da Bósnia, que aconteceu entre 1992 e 1995. O papel é um dos condutores da peça “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha”, que estreia nesta semana na sala multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana. “A preparação vem sendo muito intensa e está mexendo comigo”, ela conta ao Teatro em Cena, “Vou sair dessa peça diferente”.

(Foto: Ana Alexandrino)
(Foto: Ana Alexandrino)

O espetáculo trata de uma dura realidade das guerras: a violência contra a mulher. “O corpo da mulher do seu inimigo é usado como arma. Não é nem por uma atração sexual, e sim por um empoderamento masculino sob o outro”, explica a atriz, que estudou bastante sobre o assunto para fazer a personagem e traça paralelos com o Brasil. “A peça fala sobre essa violência, desde os assédios diários até a radicalidade, que é o estupro, uma violência absurda”, pontua. “Pedi algum texto que trouxesse uma questão política, porque a gente está precisando disso. Acho que nós, artistas, temos que usar a arte para botar o público para pensar sobre a situação atual, ainda mais agora no Brasil. A gente tem uma responsabilidade social e política”.

O texto de “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha” é do romeno Matéi Visniec, naturalizado francês após pedir asilo político em 1987. Ele escreveu a peça nos anos 1990, inspirado pela Guerra da Bósnia, mas a história permanece atual e, infelizmente, nada regional. No Brasil, acontece um estupro a cada 11 minutos, em média, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Além disso, 90% das mulheres temem ser vítimas de agressão sexual, segundo pesquisa do Datafolha, o que é bastante revelador.

Na história da peça, essa refugiada violentada, Dorra, conhece Kate, uma psicoterapeuta americana que trabalha como voluntária, e as duas juntam forças para continuar suas trajetórias. A personagem é fictícia, mas, quando você diz isso, Fernanda Nobre logo complementa: “isso realmente aconteceu com 300 mil mulheres na guerra”. Dorra, então, é a personificação de toda uma população violentada. A guerra da Bósnia teve causas políticas e religiosas e deixou mais de 100 mil mortos e dois milhões de exilados.

– Foi uma guerra teoricamente por religião, mas nenhuma guerra é religiosa. É sempre econômica. Todos que viviam normalmente como vizinhos de repente se odeiam. Eram da mesma escola, do mesmo parquinho, do mesmo clube e, de um dia pro outro, se odeiam completamente. É bem forte. – comenta Fernanda, que contracena com Ester Jablonski (de “Silêncios Claros”), também produtora do espetáculo.

(Foto: Ana Alexandrino)
(Foto: Ana Alexandrino)

A direção é de Fernando Philbert, que já havia trabalhado com Fernanda Nobre, como assistente de direção de Aderbal Freire-Filho, na peça “Linda”. Segundo ele, o espetáculo, apesar de contar “uma história dura e verdadeira”, valoriza a busca pela força dentro de si, a força que a vida exerce sobre cada um, mesmo em situações trágicas. “O espetáculo busca ampliar o universo desta personagem, sua dor, seu isolamento em uma clínica, o ódio de si mesma, a revolta com o mundo, a impotência, mas entende que a vida é mais forte e ela, a vida, vai voltando para a personagem, vai expulsando a dor e a revolta”, pontua.

Para aprofundar o tema, Ester Jablonski criou o projeto “Mulheres em Cena: Corpo e Violência”, que terá leituras, exibição de documentários e debates com ativistas, juristas e advogadas, tratando do tema violência contra a mulher. A programação começa já na terça (24/5), e terá também outra peça, chamada “Bonecas Quebradas”, a partir de junho, tratando do feminicídio em Ciudad Juarez, no México. São mais de quatro mil mulheres desaparecidas lá e mais de duas mil mortas seguindo o padrão de sequestro, violência sexual, morte por asfixia, perfurações corporais, esquartejamento e desaparecimento de cadáveres.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 20. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 19 de junho. Espaço Sesc – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.