A formação do ator foi o assunto que conduziu o último dos três dias do 3º Seminário Carioca de Teatro Musical, aberto ao público com entrada gratuita no Theatro Net Rio, em Copacabana. O ator, professor e preparador de elenco Reiner Tenente (de “Bilac Vê Estrelas”) conduziu a primeira mesa, que discutiu o ensino e o aprendizado de artistas de musical no Brasil. A principal tecla martelada foi a de que o país ainda está descobrindo um método próprio, adaptando e adequando o que é feito internacionalmente, a exemplo da Broadway. O principal avanço atual é conseguir formar os atores com cursos de canto, dança e interpretação de forma integrada – e não mais separadamente, como acontecia antes.

Professores do CEFTEM falam sobre formação do ator de teatro musical em seminário (Foto: Leonardo Torres)
Professores do CEFTEM falam sobre formação do ator de teatro musical em seminário (Foto: Leonardo Torres)

– A gente ainda está pesquisando, testando, trocando. Não tenho referência de qual método funciona no Brasil. Não temos essa formação integrada aqui. Estamos descobrindo. Temos carência de bibliografia também. – apontou Reiner, que é fundador do CEFTEM, o centro de estudos de teatro musical no Rio de Janeiro, que promoveu o evento e serviu de estudo de caso para a discussão. Além disso, ele está escrevendo sua dissertação de mestrado sobre as diferentes técnicas de ensino de teatro musical, com a pretensão de abrir um curso de pós-graduação em teatro musical no futuro.

Gustavo Klein (de “Bilac Vê Estrelas”), outro professor da instituição, destacou que o teatro musical brasileiro ainda é um bebê e é natural que o ensino esteja engatinhando. Tanto ele, quanto Leo Wagner (de “Elis, a Musical”) e Livia Dabarian (de “Chacrinha – O Musical”), que completaram a mesa, defendem a pesquisa contínua para aprimoramento. Por outro lado, algumas certezas, eles já tem. Livia, que foi para Nova York estudar e aprender a técnica da Broadway, conta que, quando voltou ao Brasil, teve que rever o que tinha aprendido para poder se encaixar no que é feito aqui. O canto americano e o brasileiro têm cada um suas especificidades. Ela, por exemplo, não passou em uma audição assim que voltou dos Estados Unidos porque estava cantando muito americanizada. Por isso, Livia defende que os aspirantes à profissão ouçam mais música brasileira e tenham maior compreensão das letras. O que funciona para Idina Menzel não funciona em português, a grosso modo.

(Foto: Leonardo Torres)
(Foto: Leonardo Torres)

Os quatro frisam também que teatro musical é, primeiramente, teatro. Seguindo essa linha de raciocínio, é fácil entender que o profissional tem que ser bom ator, antes de mais nada. Eles acreditam que muitos alunos ficam presos à questão do canto e deixam a interpretação de lado. Estatisticamente, as aulas de canto e dança costumam ser as mais procuradas em detrimento por esses atores.

– Como as audições tem o canto como primeira etapa, os alunos buscam o canto e tentam dar um truque na interpretação, o que não funciona por muito tempo. Pode funcionar no início, mas não é duradouro, porque você não está parando de atuar para cantar no espetáculo. É o personagem que está cantando. – apontou Reiner.

Essa formação, no entanto, é custosa. O valor dos cursos de teatro musical apareceu no debate mais de uma vez. Reiner diz que são caros porque é difícil encontrar profissionais qualificados e aptos a lecionar. Gustavo Klein, por sua vez, ressalta que, em compensação, o ator de musical costuma ganhar mais que um ator de “teatro falado”, então, é um investimento. Para ele, o ator de musical é uma mão de obra especializada e quanto mais especializada melhor. Reiner só faz um adendo: é sempre bom ficar atento aos locais escolhidos para estudar e se aprimorar, para não cair em picaretagem: “Não adianta você entrar em um lugar para estudar teatro musical e aprender separado canto, dança e interpretação. Separado, você podia ter aula fora dali”.