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No fim da sessão de “Hora Amarela” (Through the Yellow Hour), é possível ouvir alguns espectadores se questionando qual é a moral da história. Realmente, ela não vem. Mas a premissa de que deveria haver uma conclusão moral é por si só equivocada. Quem disse que teria? O espetáculo, com texto do americano Adam Rapp e direção de Monique Gardenberg (ambos de “Inverno da Luz Vermelha”), se passa durante uma guerra fictícia e, nessas condições, valores morais são deixados de lado. Preza-se apenas pela sobrevivência, e isso é encenado competentemente pela protagonista Deborah Evelyn (de “Deus da Carnificina”).

Deborah Evelyn em cena com  Emílio de Mello (Foto: Divulgação)
Deborah Evelyn em cena com Emílio de Mello (Foto: Divulgação)

Na história, ela é Ellen, uma enfermeira escondida há três meses no porão do seu prédio, esperando o retorno do marido, que saiu para tentar buscar comida e não voltou mais. Ela não pode sair para procurá-lo, porque estão enforcando as mulheres em praça pública e soltaram uma bomba química que contamina as pessoas. A causa, o contexto e os personagens da guerra são desconhecidos. A trama se passa em um recorte muito específico, depois do começo do conflito armado e antes do seu término. Como Ellen, isolada em seu bunker, o público também não tem mais informações. O foco é como essa mulher se desdobra para sobreviver a algo que não se pode mais chamar de vida, com o único contato externo sendo com as pessoas que ocasionalmente aparecem no porão: uma mulher misteriosa que traz um bebê de colo, um fugitivo que não fala seu idioma, um suposto amigo do marido, etc.

A concepção é um pouco cinematográfica: o cenário de Daniela Thomas, um personagem à parte, tem o teto baixo e praticamente enquadra uma tela; e a iluminação de Maneco Quinderé se apoia em luminárias e lanternas, com frequentes fade out para marcar passagens de tempo. O resultado é claustrofóbico, mas também distante, como se a plateia realmente assistisse a um filme. É a trilha sonora, do músico paulista Lourenço Rebetez, que traz o espectador de volta para a sala do teatro, porque, por vezes com canções longas demais na escuridão, dá vontade de apertar o botão de acelerar. Ela funciona, no entanto, no que concerne aos bombardeios e barulhos externos ao porão, com muita veracidade.

deborah evelyn hora amarela nua

“Inverno da Luz Vermelha”, o outro texto do Rapp montado por Gardenberg em 2010, era mais lapidado e “fechado”. “Hora Amarela” é aberto a diferentes leituras, por ter muito material, mas pouco detalhamento. Como o público comenta na saída, a conclusão não vem. O ganho é dos atores, que estão todos impecáveis e impressionantes no rebaixamento da condição humana. É bonito ver como as comentadas cenas de nudez de Deborah e Isabel Wilker (de “Cinema”) não têm nada de sensual: são sobreviventes de guerra. Deborah termina o espetáculo desgastada e destruída, e não tem como não aplaudi-la de pé.

Sem respostas, mas cheio de questionamentos e reflexões globais, o drama serve para encucar. Um dos diálogos da peça é mais ou menos assim, e reproduz-se abaixo como retrato do que é “Hora Amarela”:

– Por que eles fazem isso? Qual o motivo?
– Porque eles podem.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a dom, 19h30. R$ 10. Classificação: 16 anos. Até 8 de fevereiro. Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.