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O nome do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), indicado no título do espetáculo “Ibsen Venusianas”, é incessantemente repetido durante toda a encenação. Mas a peça não é, como pode sugerir, sobre a história dele. Na trama, uma atriz brasileira é casada com um pintor cabo-verdiano e os dois dividem uma casa-ateliê no Brasil. Ela o conheceu quando lecionava aulas sobre Ibsen em Cabo Verde, e ele se aproximou pedindo para assisti-las e pintá-las. Já com o romance em crise, desgastado, ela é chamada para voltar a Cabo Verde para quebrar seu hiato dos palcos, encenando justamente uma obra de Henrik Ibsen, e o marido surta, porque não quer que ela vá. E esse é o máximo que um espectador leigo no assunto vai ter de prévia ibsenesca, por assim dizer. A história é sobre esse ponto onde mulher que ir para um lado e homem para o outro.

(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

A concepção do projeto é da protagonista e produtora Tânia Pires, que, veja bem, ministrou oficinas sobre o dramaturgo em todos os países de língua portuguesa, incluindo Cabo Verde. Ela também foi a primeira brasileira a vencer o prêmio Ibsen Scholarship, uma espécie de concurso de projetos envolvendo o autor. Tânia também já montou duas peças dele no Brasil – “O Pequeno Eyolf”, em 2004, e “A Dama do Mar”, em 2014. Ou seja, ela e sua personagem se misturam muito. Dizer que a inspiração é autobiográfica talvez seja pouco. Mas quem assina o texto, pouco consistente, é o poeta Weydson Leal.

A dramaturgia é fragmentada, com idas e vindas no tempo e saltos na história, com cortes importantes que impedem o público de se envolver com a dissolução daquele caso de amor. É como se o texto fosse um fichamento dos pontos decisivos do iminente rompimento. A maneira como Tânia o interpreta não colabora: ela declama. Seu par, Vinícius Piedade (de “4 Estações”), tem algumas cenas boas, mas não consegue salvar. A direção de Moacyr Góes (de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”) tenta, botando os atores para se molharem, se sujarem com tintas, se descabelarem, derramarem potes, subirem e descerem de mesas e cadeiras sem justificativas. Fica a intenção de ser visceral, mas falta alma.

Os pontos altos do espetáculo são os estéticos, e as artes plásticas acabam ganhando suma importância, mais do que Ibsen ou a relação do casal. Os figurinos de Carol Lobato, que se transformam com as tintas ao longo da história, e o cenário de Teca Fichinski, que é uma estrutura de ferro fechada, criadora da sensação de clausura, são eficazes. A iluminação de Maneco Quinderé, em meio a tudo isso, consegue produzir visuais bonitos durante a trama. A infraestrutura é toda positiva, mas a mágica não acontece.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui e dom, 20h; sex e sáb, 21h; qua (só até 9/12), 20h. R$ 30. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 20 de dezembro. Espaço Cultural Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.