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(Foto: Cabéra)
(Foto: Cabéra)

“Infância, Tiros e Plumas” é o novo espetáculo do dramaturgo Jô Bilac, em parceria com a Cia. OmondÉ, que montou “Os Mamutes”, também dele, em 2012. Se aquele espetáculo deu o que falar, o novo seguirá o mesmo caminho: é um primor. Recém-estreado no Teatro Sesc Ginástico, no Centro, ele coloca o dedo na ferida do espectador com exatidão e mostra como todos nós, como indivíduos e sociedade, somos bastante ridículos. É uma experiência tão prazerosa quanto inspiradora e reflexiva.

A maior parte da história se passa em um voo com destino a Orlando. No avião, estão dois comissários de bordo mancomunados para transportar drogas na mochila de um menino sequestrado; uma menina arrogante e mimada, acompanhada do guarda-costas armado, que a leva para o concurso de Mini Miss Universo; uma família em processo de separação: mulher desequilibrada e chantagista, marido inventor de um antidepressivo famoso, pensando em matá-la, e o filho, fazendo aniversário e sendo levado à Disney; e a comissária de bordo, amante e cúmplice no plano de assassinato. São todos personagens com desvios de conduta, interpretados brilhantemente por atores um a tom acima do real. É uma brincadeira possível, coordenada pela diretora Inez Viana (de “Nem Mesmo Todo o Oceano”), porque a dramaturgia provoca tanta identificação culposa que permite uma encenação menos natural. É o inacreditável mais crível possível.

O texto do Jô Bilac é impressionante pelas boas sacadas, pelas referências inusitadas, pela construção dos personagens e pela habilidade de abordar tantas problemáticas em um espaço de tempo tão curto, de maneira tão amarrada. Se o filme argentino “Relatos Selvagens”, indicado ao Oscar, fosse adaptado para o teatro, seria mais ou menos assim. O longa e a peça têm muito em comum no descontrole do ser humano levado ao seu limite. Curiosamente, aliás, o filme também tem uma história passada dentro de um avião… Com Jô Bilac, essa ambientação e selvageria são ainda melhores exploradas com o apontamento da infância torta. É uma maravilha poder acompanhar a carreira desse dramaturgo, ainda, pode-se dizer, em início de carreira, e com tanta sensibilidade e perspicácia. Basta lembrar que são dele “Conselho de Classe”, “Beije Minha Lápide” e “Cachorro!”.

(Foto: Elisa Mendes)
(Foto: Elisa Mendes)

Felizmente, seu texto é apenas o ponto de partida para uma peça belíssima. Visualmente, o cenário de Mina Quental com a luz de Renato Machado e Ana Luzia de Simoni proporcionam cenas impecáveis e surpreendentes. E é assim desde o início, com uma coreografia contra a luz, imitando um técnico na pista de decolagem. Aqui, também chamam a atenção a direção de movimento de Dani Amorim e a direção musical de Marcelo Alonso Neves. Esse primeiro impacto já mostra que vem um espetáculo bom pela frente. É uma ótima primeira impressão. E há ainda uma cena de turbulência e outra ao som do ABBA – sem mais detalhes para não virar spoiler.

Como teatro só acontece em cena, todo o elenco merece os aplausos que recebe no fim da sessão. Ninguém perde nenhuma vírgula oferecida pelo texto, mas Carolina Pismel (de “Beije Minha Lápide”) e Debora Lamm (de “Os Mamutes”) estão deslumbrantes. Elas têm os melhores personagens e proporcionam os momentos mais engraçados e desequilibrados da história. Carolina arranca palmas em cena aberta, tendo que esperar a euforia baixar para continuar sua fala. Só um exemplo do que “Infância, Tiros e Plumas” pode proporcionar a você.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados do Sesc). 80 min. Classificação: 14 anos. Até 17 de maio. Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.