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Nova produção da Armazém Cia. de Teatro, “Inútil a Chuva” conta a história da mudança de vida de uma família após o desaparecimento do pai. Ele escreve uma carta de suicídio e some, sem que seu corpo nunca seja encontrado, e suas pinturas, antes ignoradas pela indústria cultural, são elevadas ao título de obras de arte geniais. Resta à mulher e aos filhos administrar o sucesso póstumo e conviver com a forte presença de um ausente. O texto, escrito a quatro mãos por Paulo de Moraes (de “O Dia em Que Sam Morreu”) e Jopa Moraes, curiosamente pai e filho, faz por tabela uma reflexão sobre a dinâmica do valor econômico no mercado das artes plásticas.

(Foto: Mauro Kury)
(Foto: Mauro Kury)

A peça começa com a mãe e os três filhos, com personalidades bem distintas, remando em uma canoa, mantendo uma tradição familiar criada com o pai ausente. É, de cara, uma das cenas mais bonitas de todo o espetáculo, graças à iluminação de Maneco Quinderé e à cenografia de Carla Berri e Paulo de Moraes, que colocam um barco grande suspenso no espaço cênico. É um impacto visual. O ruim é que nenhum elemento cênico que vem depois provoca impressão do mesmo nível – por mais que se esforce, com bandejas descendo do teto,um pássaro caindo próximo à plateia e um ator “pintando” ao vivo. O melhor é dado no início.

O espetáculo tem duas horas de duração, tempo que é usado para conhecer melhor um pouco de cada personagem da família. Cada um tem seu momento – o filho drag queen (Tomás Braune, de “Estufa”), a filha livre que não para em emprego (Andressa Lameu, de “A Dama do Mar”), o filho introspectivo que busca o paradeiro do pai (Leonardo Hinckel, de “Vende-se uma Geladeira Azul”), e a mãe (Patrícia Selonk, de “O Dia em Que Sam Morreu”) perdida no tempo. Há ainda uma jornalista (Amanda Mirasci, de “Uma Vida Boa”), incumbida de fazer uma reportagem sobre o pintor desaparecido, mas sem real interesse na pauta. O texto abre várias histórias menores sem explorar verdadeiramente nenhuma. Todas estão em prol de pintar um quadro da figura ausente, que, na verdade, é a mais presente em toda a encenação. A dramaturgia, no entanto, se perde um pouco no caminho. Mesmo assim, Tomás Braune e Andressa Lameu brilham, com interpretações fortes.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A direção de Paulo de Moraes, autor do texto, explora as possibilidades da sala do Armazém da Fundição Progresso. Usa um janelão como parte de uma cena e transforma a arquibancada de espectadores em convidados de uma festa em outra. É criativo, e se nota a intenção de trazer algo novo a cada cena, mas há momentos passíveis de corte. As surpresas não tiram a sensação de que há algo arrastado, porque a trama dá voltas e pouco sai do lugar.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 40. 120 min. Classificação: 14 anos. Até 20 de dezembro e de 7 de janeiro até 31 de janeiro. Espaço Armazém – Fundição Progresso – Rua dos Arcos, 24 – Lapa. Tel: 2210-2190.