(Foto: Leo Aversa)
Larissa Luz em destaque: única mulher no elenco (Foto: Leo Aversa)

36 anos depois de chegar aos palcos pela primeira vez, o musical “Ópera do Malandro” ganha uma remontagem sob os cuidados do diretor João Falcão (de “Gonzagão – A Lenda”). Ao assisti-la, fica claro que o texto não se perdeu com o tempo: as críticas sócio-políticas de Chico Buarque mantêm-se atualíssimas. O cantor assina a dramaturgia e as canções do espetáculo, que é considerado um marco – e um dos mais importantes – do teatro musical brasileiro. Em 1978, o elenco original contava com nomes como Marieta Severo (de “Incêndios”), Claudia Gimenez (de “Mais Respeito Que Sou Tua Mãe”), Maria Alice Vergueiro (de “As Três Velhas”), e Elba Ramalho. Como substitui-las? É quase um atrevimento escalar outras atrizes para fazer o que essas figuronas já fizeram.

Talvez, João Falcão também pense assim. O diretor conseguiu imprimir sua marca no musical consagrado, correndo na contramão: escalou homens para os papeis femininos. Os atores revezam-se entre ternos de contrabandistas e vestidos de prostitutas, o que dá um fôlego a mais à encenação. A brincadeira com a inversão de gênero proporciona maior comicidade e, claro, originalidade. Claudio Villela e a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho montaram “Ópera do Malandro” na década passada, mas é de Falcão a maior ousadia. O elenco está no tom certo, suficientemente feminino para os papeis, mas não tanto ao ponto de afastar o público da consciência da concepção.

Eduardo Landim em solo de "Geni e o Zepelim" (Foto: Leo Aversa)
Eduardo Landim em solo de “Geni e o Zepelim” (Foto: Leo Aversa)

A trama se passa na Lapa dos anos 1940 e gira em torno da rixa entre o contrabandista Max Overseas (interpretado pelo estreante Moyseis Marques, carismático) e o dono de uma rede de cabarés e bordeis Duran (Ricca Barros, de “Gonzagão – A Lenda”). Max se casa com Teresinha (Fábio Enriquez, também de “Gonzagão – A Lenda”), filha de Duran, e este exige sua cabeça, revelando uma rede de podres entrelaçados na sociedade carioca. Os destaques do elenco, no entanto, não estão na sinopse. São Eduardo Landim (de “Clandestinos”) no papel do homossexual Geni; Léo Bahia (de “The Book of Mormon”) como Lúcia, mulher grávida do contrabandista; e Larissa Luz (de “Gonzagão – A Lenda”), única mulher de nascença, como o narrador João Alegre. Landim é aplaudido efusivamente ao cantar “Geni e o Zepelim”, nada menos que contagiante. Bahia também impressiona com seu solo. E Luz tem uma potência vocal que faria falta se não estivesse ali.

Curiosamente, os três nomes destacados exercem apenas um personagem na peça, enquanto a maioria do elenco dá conta de dois. Chama a atenção a rapidez com que os atores trocam de roupas e acessórios, no entra e sai de cena, hora homem, hora mulher. Bom trabalho da direção e da figurinista Kika Lopes, em harmonia com a iluminação de Cesar de Ramires. O cenário, porém, é um ponto questionável. Aurora dos Campos apresenta vários andares de andaimes, pouco funcionais, que ficam no fundo do palco durante todo o espetáculo. Com a maioria do elenco em salto alto, o sobe e desce torna-se visivelmente complicado. Adrén Alves (de “Gonzagão – A Lenda”), por exemplo, sempre é vagaroso em suas descidas, como se tivesse medo de tropeçar. De um modo geral, aquilo não contribui muito para a encenação – só para causar um efeito estético no fim da peça (realmente belo, com a luz). Falando em efeito estético, as coreografias de Rodrigo Marques são elogiáveis. Bem arquitetadas de uma maneira como há muito não se via no teatro carioca.

(Foto: Leo Aversa)
Iluminação dá força ao cenário (Foto: Leo Aversa)

A remontagem de “Ópera do Malandro” agrada e instiga, revelando-se mais um acerto de João Falcão. Depois de quatro sessões de pré-estreia no Theatro Municipal, o espetáculo fará uma temporada no Theatro Net Rio, em Copacabana. Os ingressos custarão entre R$ 100 e R$ 150, e as sessões serão às 21h quintas e sextas, 21h30 aos sábados; e 20h aos domingos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.