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(Foto: Reprodução / Facebook)

É dia de pré-estreia para João Fonseca. Depois de apresentar três números de “O Grande Circo Místico” para a imprensa, no Theatro Net Rio, o diretor divide sua atenção entre os repórteres ávidos por aspas. Faltam algumas horas para a apresentação do musical aos convidados e ele, mais do que qualquer ator do elenco, é a figura célebre da noite. Uma jornalista o prende em uma entrevista por 40 minutos e, quando ele descobre que ainda há uma fila de tantos outros para responder, não esconde o espanto: “Não acabou? Tem mais? Não me suga!”. Há um quê de diva nele, apesar da simpatia com que responde as perguntas. Vez ou outra, manda chamar o assessor de imprensa da peça para avisar que está cansado e quer terminar a maratona. Mas sempre acaba cedendo. “É a última? Então tá”. “Só mais algumas, então”. “Falta falar com você? Vamos lá. Cinco minutinhos”.

João Fonseca dorme pouco e mal há duas semanas. Desliga-se no máximo cinco horas por noite – ou melhor, dia, porque deixa os ensaios no teatro às 3h ou 4h da manhã. Preocupado com a estreia, não consegue relaxar. Folga, não tem, porque ainda se dedica aos ensaios de “Cássia Eller – O Musical” e à gravação da série de TV “Vai Que Cola”. “Era para o ‘Circo’ ter estreado no fim de março, aí eu não estaria fazendo dois musicais ao mesmo tempo. Por milhões de questões, atrasou e não tinha como atrasar também o da Cássia”, conta o diretor que, na peça da cantora de “Malandragem”, divide a função com Vinícius Arneiro (seu parceiro também em “Alvodoamor”). “Essas semanas foram bem difíceis, porque você fica ansioso. Saio daqui em um estado em que tenho que tomar um chope. Entro nesse estágio do ‘Ah, vou comer, vou tomar um chope, vou chegar em casa tarde’. E acordo cedo, porque a cabeça não para”.

Tanto trabalho (ele admite que é workaholic) tem seu preço. Não tem visto os amigos, ido ao cinema ou assistido a outras peças. “É o preço que se paga, um preço caro. Para não enlouquecer, me esforço e acabo dormindo pouco. Se saio, durmo menos. Vou abrindo mão de dormir, ficando cada vez mais careca, com mais cabelo branco…”, conta ao Teatro em Cena, sentado em uma poltrona na última fileira do teatro. Dali, ele observa os outros atores dando entrevistas e Leopoldo Pacheco (de “Camille e Rodin”) ainda preocupado com detalhes do visagismo e dos figurinos da Letícia Colin (de “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”). “Mas você sabe que eu me divirto? Não tem lugar que eu goste mais de estar do que em cima de um palco no ensaio. Gostar do que faz é um privilégio”. E as pessoas também gostam do que ele faz.

O diretor vem de três sucessos seguidos: “Tim Maia – Vale Tudo, o Musical”, “Rock in Rio – O Musical” e “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”. “Tim” foi visto por mais de 400 mil pessoas, “Rock in Rio” teve seus direitos vendidos para uma adaptação na Espanha, e “Cazuza” colocou o ator Emílio Dantas no centro das atenções, com destaque até no “Domingão do Faustão” – algo incomum para uma produção teatral. O segredo do sucesso? “Se eu soubesse…”, João desconversa, sorridente. “Nessa profissão, a gente nunca tem nada certo. Não tem receita. Receita, aliás, é o que acho que não dá certo. Você tem que fazer sempre algo que te instigue, que te desafie de alguma forma”. Por exemplo, “O Grande Circo Místico”.

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Novo trabalho do diretor é “O Grande Circo Místico”. (Foto: Reprodução / Facebook)

O musical, que se apropria da trilha sonora desenvolvida por Chico Buarque e Edu Lobo para o ballet do Teatro Guaíra, era um desejo do diretor. Assim que soube do projeto da atriz Isabel Lobo (de “Deixa Que Eu Te Ame”), filha do compositor, João diz que “jogou para o universo: ‘quero fazer’”. E foi convidado. “Foi um privilégio fazer isso. Já era fã do Chico e do Edu, o que não tem nada de novidade, mas adorava a obra e achava que seria muito bacana transformá-la em musical”. Para ele, é realmente uma realização. Garante que não sente a pressão para repetir os sucessos anteriores. “Gosto de estar feliz com meu trabalho e com o que estou fazendo. Hoje, já estou feliz com o resultado. Se a peça vai ser um sucesso ou não, pra mim tanto faz. Procuro não pensar nisso. Sucesso é uma coisa absolutamente relativa. Não tenho esse compromisso”. Quando um repórter o chama de hitmaker, ele solta exaltações de rejeição, mas com um sorriso nitidamente envaidecido.

No fundo, o que ele quer dizer é que não se submete a fórmulas para agradar aos críticos ou aos espectadores. “Não passo vontade. Faço o que quero”. Na sua produção recente, há de tudo. Dirigiu comédias com Paulo Gustavo (em “Minha Mãe É Uma Peça”) e Ingrid Guimarães (em “Razões Para Ser Bonita”); drama do austríaco Hans Weingartner (em “Edukators”); clássico do Nelson Rodrigues (em “Dorotéia”); e releitura de Romeu e Julieta (em “R&J de Shakespeare – Juventude Interrompida”). Em “Dorotéia”, a história da ex-prostituta forçada a ficar feia para ser acolhida na casa das primas viúvas, não usou máscaras ou qualquer tipo de maquiagem para enfear a protagonista Alinne Moraes, que é um ícone de beleza. Em “R&J de Shakespeare” foi além: colocou um personagem para cantar “Rapunzel”, da Daniela Mercury. Na época, lhe chamaram a atenção que aquilo poderia soar desrespeitoso à obra do dramaturgo inglês. “Alguém falou que a Bárbara Heliodora ia morrer e me destruir, mas eu disse: ‘dane-se, porque eu estou me divertindo’. Depois, a Bárbara elogiou. Imagina se eu me privo de fazer algo que gosto porque alguém falou que acha que os críticos não vão gostar, ou que isso não dá certo e não faz sucesso? Não existe fórmula. A gente faz o que acredita”.

(Foto: Reprodução / Facebook)
(Foto: Reprodução / Facebook)

O discurso é corajoso e emblemático, mas não dá para fazer vista grossa ao óbvio: a obra do Tim Maia, do Cazuza e da Cássia Eller é praticamente garantia de público. Biografias sobre eles, então, são chamarizes para os fãs. Alvos mirados para lotar teatros. Talvez, por isso, “O Grande Circo Místico” tenha vindo neste momento: para fugir da inércia. Além de ser uma história pesada, com cenas de estupro, de tortura, de nudez e de guerra, a trilha sonora não é de megahits – embora “A Ciranda da Bailarina”, “Beatriz” e “A História de Lily Braun” sejam bastante conhecidas. “A música do Tim, por exemplo, é profundamente popular e atinge da classe A à Z. A música do ‘Grande Circo Místico’ não tocou incessantemente nas rádios. Tem esse charme e potencial da sofisticação, mas não é uma música que as pessoas escutam todo dia em qualquer festinha. Não é Cazuza, Tim, Cássia, não é FM”.

“Cássia”, aliás, estreia no fim do mês, o que vai dar mais espaço na agenda do diretor. Ele ficará focado apenas na direção do programa “Vai Que Cola”, que tem gravações marcadas até setembro. De qualquer forma, terá mais tempo livre. “Espera a Copa, né. Todo mundo vai ter folga na Copa. Acho que vai ser isso”, diz João, mexendo na armação do seu relógio de pulso incessantemente, revelando sinais de hiperatividade ao senso comum. Embora não aponte o que virá em seguida, ele conta que está associado a diversos projetos. Há uma peça de Tennessee Williams com Louise Cardoso (quem ele dirigiu em “Velha É a Mãe”), um musical sobre “O Beijo no Asfalto” com Claudio Lins (de “Elis, a Musical”), musical em cima do livro “Bilac Vê Estrelas” do Ruy Castro, uma peça chamada “Idade das Trevas”, inspirada na obra do escritor Chuck Palahniuk, e um espetáculo da Cia. Fodidos Privilegiados. “Mas são coisas incertas. Não estou amarrado a nada ainda, graças a Deus. Ainda posso fugir”. Aclamado como o diretor mais produtivo do Rio de Janeiro, ele dificilmente fugirá.