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Joaquim Lopes (de “Vestido de Noiva”) é mais conhecido como um homem bonito e simpático do que por ser um ator de credibilidade. É natural, então, que seu nome como protagonista de “Anti-Nelson Rodrigues” cause certo desconforto e preconceito nos fãs do dramaturgo. Mas ele chega à reta final da temporada do espetáculo vitorioso. As pessoas que ainda vão ver, tranquilizem-se: ele está impressionante e surpreendentemente bem. É um Oswaldinho para não se botar defeito.

Joaquim Lopes e Yasmin Gomlevsky em cena (Foto: Páprica Fotografia)
Joaquim Lopes e Yasmin Gomlevsky em cena (Foto: Páprica Fotografia)

Oswaldinho é o nome do personagem central dessa 16ª peça de Nelson Rodrigues, estreada originalmente em 1974, após um hiato de oito anos sem apresentar nada novo ao público. Na história, ele é um jovem rico, bon-vivant, mimado, mulherengo e arrogante, que decide se tornar o presidente de uma das fábricas do pai – mais como uma forma de provocá-lo e desafiá-lo do que por qualquer ambição profissional. No primeiro dia de trabalho, ele se interessa por Joice (aqui interpretada por Yasmin Gomlesvky, de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), também recém-empregada. Tentando seduzi-la, Oswaldinho a contrata como secretária, dobra seu salário e faz várias investidas – mas ela é religiosa, está noiva e, ao contrário das outras, não é corrompível. Por isso mesmo, ele se apaixona.

Joaquim protagoniza cenas de euforia, de desespero, de melancolia, de bebedeira, de tensão erótica com a mãe (Juliana Teixeira, de “Aos Domingos”), de humilhação, de manipulação emocional… Seu grita que quer a morte do pai, brinca com a Bíblia na região pélvica, joga o livro sagrado no chão, faz ameaças de estupro… São vários momentos fortes e difíceis, com muitas nuances em 70 minutos de encenação – muitas oportunidades para o ator deixar a peteca cair, e ele não deixa. Quem assiste esperando o pior tem uma feliz surpresa. Joaquim está um bom ator.

Joaquim Lopes com Juliana Teixeira: filho e mãe em "Anti-Nelson Rodrigues" (Foto: Páprica Fotografia)
Joaquim Lopes com Juliana Teixeira: filho e mãe em “Anti-Nelson Rodrigues” (Foto: Páprica Fotografia)

A direção é do Bruce Gomlevsky (de “Um Estranho No Ninho”), que imprime uma leitura bem realista sobre o texto. No entanto, há alguns momentos confusos no início do espetáculo, quando os atores dão risadas canastronas, entrando em conflito com essa opção. Depois, passa. Quanto ao elenco, Tonico Pereira (de “Timon de Atenas”) está especialmente engraçado e cativante. Há ainda um pianista ao vivo em cena, provando-se tão desnecessário quanto tosco e clichê, com direção musical de Mauro Berman. A iluminação (de Luiz Paulo Neném) é mais interessante, com seus focos na escuridão. O cenário (de Patti Faedo) é simples e eficaz, e os figurinos (de Nívea Faso) são adequados.

“Anti-Nelson Rodrigues” não é exatamente o que seu título propõe. A temática é toda em torno de sexo, aqui mascarado às vezes de amor, e a morte está presente o tempo todo – como medo, anseio ou menção. Há também nudez em cena (do ator Rogério Freitas, de “Estranho Casal”). Quer mais Nelson que isso? O título se deve ao desfecho da história, que não é trágico nem perturbador: é quase fofo – apesar de inconsistente. Longe de mim criticar Nelson Rodrigues, mas a verdade é que esse espetáculo abre uma série de questões sem fechar a maioria. Mas vale assistir para conhecer esse outro lado do dramaturgo, romântico a seu modo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduação em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 10. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 31 de maio. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Teatro III – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.