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(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

Tantas questões envolvem “Kiss Me, Kate – O Beijo da Megera”! Assistir ao espetáculo sem qualquer informação prévia não interfere no entendimento, mas fica muito mais saboroso se você tem algum conhecimento. Dois dados são usados como chamarizes de público e você dificilmente escapará deles: as canções de Cole Porter (1891-1964), escritas especialmente para o espetáculo, e a metalinguagem com William Shakespeare (1564-1616), pois, na história, os personagens formam uma trupe teatral que monta “A Megera Domada”, a comédia sobre o casal Petruchio e Catarina. Porter e Shakespeare já são boas razões para sair de casa, mas há mais do que isso. “Kiss Me, Kate” não é uma versão musical de “A Megera Domada”. Na trama, dois atores separados, Fred e Lili, continuam trabalhando juntos e vivem às turras durante a temporada da peça de Shakespeare, por vezes levando para o palco seus problemas pessoais, protagonizando até cenas de agressão aos olhos do público, que já não sabe o que são Fred e Lili e o que são Petruchio e Catarina, casal igualmente ou mais problemático. No programa do espetáculo, os diretores Charles Möeller e Claudio Botelho contam que realmente existiu um casal de atores assim, que inspirou Sam e Bella Spewack a escreverem o musical: “o casal de atores Alfred Lunt e Lynn Fontanne, conhecidos do público como ‘os Lunts’, era o mais bem pago e mais famoso casal de teatro da história do teatro americano. Naquele ano [1935], eles estrelaram uma montagem de ‘A Megera Domada’ (…) era engraçado ver os Lunts brigaram nas coxias exatamente como Petruchio e Catarina faziam no palco”. Não é curioso? “Kiss Me, Kate” é uma peça com outra peça dentro, inspirada nos bastidores da montagem desta mesma peça. Se perdeu? Leia a frase anterior de novo até entender. Não é tão difícil assim.

O espetáculo original da Broadway estreou em 1948, recebeu cinco Tony Awards e ficou em cartaz com 1077 apresentações. Em 1951, houve a montagem inglesa, em 1953, a adaptação cinematográfica, e em 1999, a remontagem em Nova York, que recebeu mais cinco Tony Awards. No Brasil, o musical chega pela primeira vez, com José Mayer (de “Um Violinista no Telhado”) e Alessandra Verney (de “O Que o Mordomo Viu”) no papel do casal de protagonistas. Os dois desenvolveram bom entrosamento ao longo dos 30 dias de ensaios e apresentam boa química na peça, que é uma verdadeira homenagem à classe teatral. A versão brasileira do texto e das músicas, assinada por Claudio Botelho, aproxima a obra do público, com piadas locais, com referência à agressividade do ator Dado Dolabella e às falcatruas do deputado Eduardo Cunha. A plateia morre de rir com o diálogo machista:

– Mulheres devem receber pancadas regularmente, como os gongos.
– Quem falou isso?
– Um jovem autor, Dado Dolabella.
– Eis aí um homem que eu queria conhecer… Um novo gênio!

Da mesma forma, a música “Chama o Shakespeare!”, versão de “Brush Up Your Shakespeare”, satiriza a onda de biografias musicais do teatro nacional, brincando que até as histórias do goleiro Bruno e do “Papa, com música do Rappa” poderiam chegar aos palcos. Não poupa ninguém. De aplaudir de pé.

(Foto: Leo Aversa)
(Foto: Leo Aversa)

Os números musicais são quase todos muito bons, mas os do segundo ato são infinitamente mais divertidos e impressionantes que os do primeiro. As três canções iniciais do espetáculo, na verdade, são um tanto tediosas e não causam boa impressão. É a partir do primeiro solo de Alessandra, “Tanto Amor”, que tudo engrena: a técnica dela é admirável. É bonito ver um elenco tanto de alto nível quanto bem nivelado. Todos cantam e interpretam bem, até o cartunista Chico Caruso, que apresenta o número mais hilário de todo o musical, justamente “Chama o Shakespeare!”. José Mayer comprova seu talento e destacam-se ainda Fabi Bang (de “O Homem de La Mancha”) e Guilherme Loggulo (de “Elis, a Musical”), que interpretam o casal de atores Lois e Bill. O solo dela, “Eu Sou Sempre Fiel”, é de uma doçura interessante para seu conteúdo, e ele chama a atenção pela performance no número dele, “Bianca”. É muito interessante ainda a opção da direção por abrir o segundo ato com uma apresentação apenas da orquestra, evidenciando-a com o cenário suspenso e ressaltando sua qualidade, regida e dirigida por Marcelo Castro (de “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”). É a primeira e única vez que o público vê os músicos em cena, o que proporciona um momento especial. Cabe dizer ainda que as coreografias de Alonso Barros (de “Chacrinha, o Musical”) estão de tirar o fôlego, especialmente no número do coro no início do segundo ato (eu disse que o segundo ato detinha o que há de melhor), que arranca aplausos efusivos com seu show de energia.

A história se passa toda em um teatro, ora na coxia e nos camarins, ora no palco. A cenografia inteligentemente concebida por Rogério Falcão brinca com um painel com a ficha técnica da montagem fictícia de “A Megera Domada”. Ele desce, tapando todo o fundo do palco, quando os personagens estão interpretando Shakespeare, e sobe, revelando os bastidores, quando estão fora do palco, sendo eles mesmos. É o oposto da intenção de abrir e fechar cortinas – genial. Os figurinos de Carol Lobato também não deixam dúvida quando querem imprimir Fred ou Fred interpretando Petruchio, por exemplo. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros também não abre espaço para críticas. É tudo correto. É difícil encontrar falhas em “Kiss Me, Kate”, por mais que se tente. O musical é um acerto.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex, 21h30; sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50 a R$ 150. 130 min. Classificação: 12 anos. Até 13 de dezembro. Teatro Bradesco – Shopping Village Mall – Avenida das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca. Tel: 3431-0100.