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O espetáculo “Laio & Crísipo”, da Aquela Cia. de Teatro, propõe uma releitura da tragédia de Laio, pai de Édipo, assassinado pelo próprio filho. Mas não é essa famosa história a que se vê no palco. Aqui, é o prelúdio: a juventude de Laio, fugido de Tebas ao ver sua vida em risco e acolhido em Frígia, onde se envolve em uma relação homoafetiva com Crísipo, o filho do rei. Segundo o material de divulgação da companhia, essa trama, que não chegou até nós, foi escrita por Ésquilo e Eurípedes, mas pode tanto ter sido esquecida e ignorada pelo tempo quanto censurada. No espetáculo, a releitura põe Laio e o pupilo Crísipo em um inferninho de beira de estrada, em uma montagem tanto sexy quanto vulgar, no melhor dos sentidos.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A peça começa com as silhuetas dos três atores do elenco – Erom Cordeiro (de “Razões Para Ser Bonita”), Carolina Ferman (de “Desalinho”) e Ravel Andrade (do filme “Não Pare Na Pista”) – marcadas contra a luz de um painel. Lembra os shows do cabaré Crazy Horse de Paris. Em seguida, os atores ganham a cena, cada um em sua “cabine”, fazendo poses enquanto a música toca. O intérprete de Crísipo está praticamente nu, mostrando as nádegas para a plateia em sua roupa S&M. Jocasta, por sua vez, veste um longo vermelho, ao mesmo tempo bastante vestida e nua. Nessa introdução, já estão ali todos os pontos fortes do espetáculo: o show da iluminação (de Renato Machado), que proporciona uma modernidade vulgar e bela à trama, a trilha sonora composta especialmente para a peça e executada ao vivo por João Paulo e Felipe Storino (com os atores cantando), e a direção de Marcos André Nunes (de “Edypop”), que opta na maior parte do tempo por escolhas não óbvias e bons recortes de corpos.

O texto é de Pedro Kosovski (de “Edypop”) e conta a história em retrospecto, como se os personagens, com a licença poética de vivos ou mortos, contassem o início de suas famosas tragédias. Mas o tempo não é o presente, tampouco. Embora com referências atuais (há uma citação à polêmica dos beijos gays nas novelas, por exemplo), o caráter da dramaturgia é de pretérito, principalmente pelas interseções de Jocasta, que aparece mais como comentarista e narradora na primeira metade. Como tragédia, não provoca catarse, porque o desfecho dos personagens é lembrado a todo tempo, mas a montagem seduz. Com uma ou outra pitada de bom humor, há espectador que consegue até rir, o que não é ruim, vistas as intenções dramatúrgicas. É um drama erótico bem humorado.

(Foto: Julio Melo)
(Foto: Julio Melo)

A direção de Marcos realmente explora os corpos, tanto de forma individual quanto em interação. Há nudez e cena de sexo, mas tudo é muito mais explícito quando os atores estão parcialmente vestidos – o que revela uma inteligência perspicaz. Jocasta é mais erótica vestida do que de topless, por exemplo. Paira uma atmosfera sexual em grande parte da encenação, como se o espectador de fato estivesse diante de um peep show. E os créditos disso vão muito também para a música e a iluminação. Todos os elementos cênicos estão alinhados harmonicamente em prol do bem maior, que é ser sexy sem deixar de ser vulgar.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados do Sesc). 80 min. Classificação: 16 anos. De 25 de junho até 19 de julho. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.