Lapinha comove com canções originais e biografia romantizada

Isabel Fillardis e Zezeh Barbosa: filha e mãe em "Lapinha" (Foto: Leo Viana)

Isabel Fillardis e Zezeh Barbosa: filha e mãe em “Lapinha” (Foto: Leo Viana)

Foram alguns anos para que a atriz Isabel Fillardis (de “A Menina Edith e a Velha Sentada”) conseguisse levantar o espetáculo musical “Lapinha”, atualmente em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, com direção de Edio Nunes e Vilma Melo (dupla de “Cabaré Dulcina”). Um dos motivos era a falta de registros sobre Joaquina Maria Conceição da Lapa, a cantora lírica retratada. Mas essa questão foi resolvida, com uma “versão romântica” da vida da artista, que fez sucesso entre o fim do século XVIII e o início do século XIX.

O texto escrito por João Batista (de “Piano Bar”) é bem bolado e amarrado, trabalhando em dois tempos simultâneos – o pretérito, com a história da cantora em ordem cronológica, e o presente, ambientado na sala de um museu. Quanto é biográfico ou ficcional não importa, porque a dramaturgia cumpre sua missão de envolver a plateia. O único problema é a primeira parte: a infância de Lapinha. Isabel Filardis usa o mesmo figurino de adulta para fazer a criança, e é difícil comprar a personagem, porque a interpretação resulta um tanto patética. Conforme Lapinha cresce, porém, ela, Isabel e a peça ganham força e densidade. O espetáculo aborda o preconceito racial da época. Para ser aceita nos teatros cariocas e portugueses, a cantora lírica tinha que se maquiar de branca e esconder sua cor para se apresentar. A encenação é comovente.

Todas as canções apresentadas no espetáculo são originais, criadas por Wladimir Pinheiro. A maioria delas é bonita, e difícil de cantar. Isabel, é verdade, sai do tom aqui e acolá, mas acerta na maior parte do tempo. Além disso, está cercada de bons atores/cantores, como Helga Nemeczyk (de “Emilinha e Marlene”) e Ruben Gabira (de “Priscilla, Rainha do Deserto”), e de uma orquestra competente. O forte da atriz, no entanto, é sua entrega emocional para o papel. É como se ela incorporasse Lapinha, e isso é incrível. Sua química com Zezeh Barbosa (de “A Valsa Número Seis”), que faz sua mãe, também é exata. Zezeh, aliás, não canta, mas é de um carisma incomum.

Cenários e figurinos (de Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo) são ok, com exceção da falta de uma vestimenta adequada para a infância da personagem. A iluminação (de Aurelio De Simoni) está no mesmo nível. O bom de “Lapinha” é mesmo a dramaturgia apresentada, com a trilha sonora autoral. A temporada irá até 19 de dezembro, com sessões quartas às 21h, quintas às 18h30 e sextas às 19h. Os ingressos custam R$ 60. A classificação é livre.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural