(Foto: Robert Schwenck)
(Foto: Robert Schwenck)

Na coxia, o elenco está agitado. A equipe criativa decidiu cortar, encurtar e trocar a ordem de algumas cenas do espetáculo no primeiro dia de apresentação para o público. A cabeça de alguns está atordoada com as novidades repentinas, após dois meses e meio de ensaios intensos. Se perguntar que dia é hoje, tem ator que não sabe mais responder. Para completar, o figurino ainda não está 100% acertado: há perucas que caem da cabeça e sapatos que saem do pé. É uma superprodução, mas também são 500 peças de roupa, então ajustes pendentes não são exatamente um crime. Mas representam mais um ponto de preocupação para o elenco: lembrar do texto e das marcações, passar naturalidade, acertar as notas e as letras, não errar as coreografias, se adaptar às mudanças de última hora e segurar a peruca, literalmente. É esse frenesi que toma conta dos jovens atores nos bastidores de “Chacrinha – O Musical”, quando as cortinas se abrem e mostram Leo Bahia e Stepan Nercessian no palco para 1.143 convidados no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes. Olhando-os, o espectador nem imagina o clima atrás do palco. Com seu carisma indiscutível, Leo conduz o espetáculo como se estivesse apresentando-o há uma longa temporada. E é só o primeiro dia.

Natural de Niterói, o ator de 23 anos foi escolhido para interpretar a juventude de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, por meio de audições. Venceu atores como Tauã Delmiro (de “Os Saltimbancos”) e Thadeu Torres (de “O Grande Circo Místico”), ambos com mais experiência do que ele. A carreira de Leo Bahia é recente, e despontou neste ano. Ele co-protagonizou a montagem acadêmica de “The Book of Mormon”, da UNIRIO, onde trancou o bacharelado em Música, e o musical se tornou a sensação da cidade. Das apresentações no pequeno teatro da faculdade, o espetáculo foi levado para outras universidades e plateias maiores, como a da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. O boom atraiu a mídia e rendeu elogios da crítica Bárbara Heliodora e da atriz Fernanda Montenegro (de “Viver Sem Tempos Mortos”). Mas não ficou só nas felicitações. O destaque na peça serviu para ele emendar um trabalho no outro. Ainda em 2014, fez também o experimental “Vida, o Musical” (no qual trabalhou com Rodrigo Nogueira, que assina o texto de “Chacrinha” com Pedro Bial) e a remontagem de “Ópera do Malandro” (dirigida por João Falcão). Não parou de trabalhar. Se a vida de ator é não saber se terá emprego no dia seguinte, ele pode se gabar de não ter tido férias em 2014.

Stepan Nercessian e Leo Bahia dividem papel de Chacrinha em diferentes fases da vida (Foto: Robert Schwenck)
Stepan Nercessian e Leo Bahia dividem papel de Chacrinha em diferentes fases da vida (Foto: Robert Schwenck)

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– Foi um ano mágico. No mesmo domingo, eu me vi fazendo de manhã a “Ópera do Malandro” no Teatro Municipal, que é o teatro mais tradicional do Rio, e à noite “The Book of Mormon” na Cidade das Artes. É um presente estar nesses dois teatros lotados no mesmo dia. “Chacrinha” é a coroação de um ano perfeito. – ele analisa, em entrevista ao Teatro em Cena, na véspera da estreia do espetáculo. Não há qualquer vestígio de egocentrismo, deslumbramento ou exibicionismo em seu tom de voz. Talvez uma ponta de justificada vaidade, mas está mais para incredulidade. Algo como “isso tudo está mesmo acontecendo comigo?”. Ele é modesto. Parece não ter noção de que é a sensação da cidade. Tudo, de fato, aconteceu muito rápido.

Filho de um produtor musical e de uma psicóloga formada em teatro pela mesma UNIRIO, Leo cresceu cercado de arte, mas não foi do tipo criança prodígio. Só começou a estudar canto, “despretensiosamente”, ele garante, na adolescência. A primeira audição para um musical chegou em 2009, quando tinha 18 anos. Foi para a montagem de Charles Möeller e Claudio Botelho do importado “O Despertar da Primavera” (Spring Awakening), que revelou nomes como Malu Rodrigues, Pierre Baitelli, Letícia Colin e Rodrigo Pandolfo na cena carioca. O fluminense não pegou nenhum papel na peça, mas ganhou confiança, por ter passado na primeira fase, que consistia justamente no teste de canto. “Isso me deu um gás para continuar estudando e a partir daí fui fazendo minha trajetória. Antes, eu achava que não tinha talento para fazer teatro musical”.

Oi?

Sim, ele disse isso. “Achava que não tinha talento”. Alguém explica?

Leo Bahia com Hugo Keith em "The Book of Mormon": o início de tudo (Foto: Reprodução / Alexandre Farias - Black Flash)
Leo Bahia com Hugo Keith em “The Book of Mormon”: o início de tudo (Foto: Reprodução / Alexandre Farias – Black Flash)

– Eu sempre tive uma ligação com teatro e com música. Comecei a ver teatro musical e o que sempre me interessou foi o canto interpretado, o canto na cena. – diz o artista, que despertou para esse universo quando assistiu “A Noviça Rebelde” pela primeira vez – A partir daí, o teatro foi vindo de uma forma mais natural para mim. Eu sempre fui apaixonado por teatro musical, só achava que não tinha talento.

Hoje em dia, porém, não dá mais para ter esse tipo de dúvida. Leo colhe elogios de artistas renomados. Um dos maiores compositores do teatro musical brasileiro, Chico Buarque ficou impressionado com seu trabalho em “Ópera do Malandro” e o chamou de “excepcional talento” no Facebook. No espetáculo, Leo interpretava Lucia, dondoca grávida do contrabandista Max Overseas. Na montagem original, o papel foi de Elba Ramalho. Além do desafio de interpretar uma mulher, Leo tinha que se desvencilhar da imagem do jovem mórmon Elder Cunningham, ainda muito forte na cabeça do público. E conseguiu.

Foi durante a temporada de “Ópera” que ele recebeu o convite para fazer o teste para “Chacrinha – O Musical”, produção de R$ 12 milhões da Aventura Entretenimento. A audição foi direcionada para o papel principal e o anúncio da escolha do seu nome aconteceu no horário nobre da TV Globo, em matéria do dominical “Fantástico”. Os ensaios começaram em seguida e ele teve que se dividir entre os dois compromissos. Para o diretor do espetáculo, o cineasta Andrucha Waddington, é natural que Leo esteja tão requisitado atualmente.

Leo Bahia (de azul) em cena de "Ópera do Malandro" com Moyseis Marques e Fábio Enriquez (Foto: Divulgação)
Leo Bahia (de azul) em cena de “Ópera do Malandro” com Moyseis Marques e Fábio Enriquez (Foto: Divulgação)

– Não foi difícil escolher ele, né? O Leo é um talento. Ele tem todo o star quality: o cara canta, dança, e é muito sensível ao interpretar. É um ator fenomenal. Ele tem todas as características que você precisa para um musical. – Andrucha elogia, no dia da estreia VIP de “Chacrinha, o Musical”, uma semana depois da primeira apresentação – Acho que ele é um ator único. É muito difícil você dizer com quem o Leo se parece. Ele se parece com o Leo Bahia. Eu já tinha visto-o no “The Book of Mormon” e, quando ele fez a audição, foi matador.

O processo de ensaios levou dois meses e meio. Na peça, Leo protagoniza o primeiro ato e faz pequenas aparições ao longo do segundo, estrelado por Stepan Nercessian. É ele quem canta “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Fogo e Paixão” e “Meu Bloco Na Rua” (vídeo mais abaixo), entre outros sucessos da música nacional. Na primeira parte do musical, inspirada na literatura de cordel e ambientada em Campina Grande, Recife e Rio de Janeiro, Leo apresenta ao público o Abelardo Barbosa pré-“Chacrinha” – uma história pouco conhecida do grande público.

– Para mim, esse é o grande pulo do gato do negócio, porque eu tenho uma liberdade de criação muito grande. Eu posso criar o meu Abelardo, quem é a pessoa que vira o Chacrinha. Essa era a minha máxima. – conta o ator, que divide os créditos com os dramaturgos, o diretor, a figurinista… todo mundo. – Eu pego o personagem dos dez aos 40 anos, então figurino e caracterização são uma parte muito importante para mim. Por mais que a gente tenha feita toda a criação corporal, vocal e até de cabeça mesmo, de pensamentos, o figurino é muito importante. Foi decisivo para completar o que eu estava querendo fazer.

É difícil dizer que “Chacrinha” é o trabalho mais importante do Leo até hoje, porque “The Book of Mormon” e “Ópera do Malandro” também foram produções importantes, com bons papeis para ele. Mas é esse espetáculo que levará o nome do ator para fora do Rio de Janeiro. Por enquanto, ele ainda é um fenômeno local. Mas, em 2015, o musical será levado para o Teatro Alfa, em São Paulo. Depois disso, vai saber o que o destino reserva. Questionado sobre interesse por trabalhos na TV e no cinema, o ator não descarta a possibilidade:

– Eu acredito na arte. Sou apaixonado pelo teatro musical, mas a arte abrange todo tipo de veículo. Tenho muita vontade de enveredar por outros caminhos e descobrir outras formas de fazer arte.

SERVIÇO
Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, s/nº, Centro. Telefone: 2332-9257.
Dias e horários: 5ª, às 19h; 6ª, às 20h; sábado, às 16h e às 20h e domingo, às 19h.
Ingresso: 5ª e 6ª: R$ 50 (balcão simples), R$ 80 (balcão nobre) e R$ 100 (plateia). Sáb. e dom.: R$ 50 (balcão simples), R$ 100 (balcão nobre) e R$ 120 (plateia).
Duração: 2h15 (com intervalo)
Classificação etária: 12 anos
Até 1º de março