Leopoldo Pacheco é ator de teatro, televisão e cinema; diretor; figurinista; cenógrafo; marido; e pai. Se ler essa frase cansa, imagine vivê-la. Desde que se tornou um nome forte nas produções da TV Globo, há dez anos, ele passou a se dividir entre a televisão e o teatro, e entre Rio de Janeiro e São Paulo, onde vive com a família. Nos últimos dois anos, emendou “O Brado Retumbante”, “Cheias de Charme” e “Joia Rara”, gravadas no Rio, enquanto apresentava a peça “Camille e Rodin” quase initerruptamente em São Paulo. Por isso, sua confissão não surpreende: “Estou muito cansado. Preciso de um tempo de descanso”. Calma. Em breve. Ainda não.

Leopoldo Pacheco na pele de Auguste Rodin no teatro. (Foto: Divulgação / Ale Catan)
Leopoldo Pacheco na pele de Auguste Rodin no teatro. (Foto: Divulgação / Ale Catan)

Antes, ele tem mais um desafio: gravar a reta final de “Joia Rara” enquanto se apresenta com Melissa Vettore (de “Segredo Entre Mulheres”) no teatro. “Camille e Rodin” estreou na semana passada no Maison de France, no Rio de Janeiro, com sessões de sexta a domingo. Pode parecer um facilitador gravar e fazer teatro na mesma cidade – se antes ele tinha que voar para São Paulo para se apresentar. Mas quem conhece a hora do rush carioca sabe que não é bem assim. Do Projac ao Centro, onde fica o teatro, são cerca de 40 km. Com as obras na cidade e o engarrafamento cada vez pior, haja paciência. “Eu quase fico louco. No sábado, que eu achei que não teria trânsito, tinha. Mas consegui chegar e deu tudo certo”, conta o ator, com sua fala mansa, em entrevista ao Teatro em Cena. “Esse é o grande estresse que a gente tem quando faz teatro. Tentei agendar a temporada para depois da novela, mas não consegui. Agora vai ser assim até a novela acabar. Tenho mais duas semanas de sufoco”.

Ele reclama, mas gosta. Admite que estava morrendo de saudade de interpretar o escultor Auguste Rodin no palco. “Eu adoro o espetáculo, né? Adoro!”. Essa peça é particularmente especial para ele e Melissa, que são idealizadores do projeto. Eles fizeram toda a pesquisa do material por nove meses, convidaram Franz Kepler (de “Divórcio”) para escrever o roteiro, e Elias Andreato (de “Florilégio Musical”) para dirigir. Isso faz tempo, mas até hoje Leopoldo continua mergulhado nesse universo do casal de artistas franceses. Antes de estrear no Rio, por exemplo, ele andou estudando mais um pouco, relendo livros e refletindo mais sobre as obras citadas na peça. As inspirações o cercam. “Nosso camarim é cheio de imagens da Camille e do Rodin, e das obras dos dois”, conta. Depois de dois anos vendo-as, ele estabeleceu um vínculo estreito com essas esculturas. “Outro dia fui assistir àquele filme, ‘Caçadores de Obras-Primas’. Quando eles sobem a escadaria do primeiro lugar, aparecem detalhes da escultura ‘Burgueses de Calais’. Você viu? Eu dei um pulo no cinema! Estava com minha mulher e falei assim: ‘a minha escultura!’ Fiquei tão emocionado na hora. Parecia que realmente era minha. Foi uma emoção incrível. Eu me inspirei muito nos ‘Burgueses de Calais’. Gosto muito dessa escultura”.

Escultura Os Burgueses de Calais na praça  l’Hôtel de Ville em Paris. (Foto: Reprodução / Internet)
Escultura Os Burgueses de Calais na praça l’Hôtel de Ville em Paris. (Foto: Reprodução / Internet)

Formado em Artes Plásticas, Leopoldo Pacheco assumiu a ousadia de moldar suas próprias esculturas de argila em cena. Quem vê “Camille e Rodin”, também conhece esse outro lado dele. Com orgulho, o paulista ressalta que todas as obras dispostas no palco foram feitas por ele. Tudo começou durante os ensaios, quando sentiu a necessidade de mexer com argila para mergulhar no universo do personagem. “Queria exercitar a questão do movimento, da profundidade, essa parte teórica que ele discute. Queria ter essa experiência”, explica. “As esculturas foram ficando interessantes, porque têm essa influência muito grande do pensamento do Rodin. É claro que não sou escultor. Gosto, tenho um prazer imenso, e fico muito feliz por poder colaborar com o personagem nesse nível”.

Não é só da arte do escultor, no entanto, que é feito o espetáculo. A trama é passional e turbulenta justamente por enfocar os 15 anos em que ele e a aluna Camille Claudel viveram juntos paralelamente ao casamento oficial dele. O público presencia uma história de amor tanto construtiva quanto destrutiva, dependendo do que se avalia. “A Camille lia muito a relação deles nas obras, o que é incrível. Ela dá nomes como ‘Fugit Amor’: o amor está indo embora, puxado por essas forças, por essa diferença de idade. A escultura conta muito da história deles dois. Mas, ao mesmo tempo, eles se destruíam afetivamente. O espetáculo começa no idílio amoroso e mergulha nesse buraco profundo”, analisa o ator. Em cena, Leopoldo e Melissa impressionam particularmente nas cenas de conflito, de confronto físico e emocional. A tensão é tanta que dá para cortar com uma faca. Tudo parece muito real. É um trabalho nitidamente desgastante, que demanda muita energia. “Ah, mas demanda mesmo! A gente fica cansado depois. Quando acaba o espetáculo, seja ele qual for, você ainda mantém uma adrenalina por uma ou duas horas. Quando isso passa, você literalmente desmorona, porque você está sem energia nenhuma”.

Em cena com Melissa Vettore em "Camille e Rodin". (Foto: Divulgação / Ale Catan)
Em cena com Melissa Vettore em “Camille e Rodin”. (Foto: Divulgação / Ale Catan)

Ele divide os créditos da naturalidade e do realismo da encenação com o diretor, com quem contracenou na comédia “Amigas Pero No Mucho” entre 2007 e 2009. “Tenho uma admiração pelo sacerdote de teatro que é o Elias”, justifica sua escolha. “Quando a gente o chamou para dirigir, ele teve essa delicadeza comigo e com a Melissa. Acho que é muito resultado do trabalho dele a maneira como estamos em cena. É muito coletivo”. Gentil e com espírito de equipe, Leopoldo cita os nomes de todos os profissionais envolvidos no espetáculo durante a entrevista. Elogia a luz do Wagner Freire, o cenário do Marco Lima, os figurinos da Marichilene Artisevskis e a trilha do Jonatan Harold. Faz questão de ressaltar a importância de cada um para o resultado final. “Eu quis chamar pessoas que pudessem nos ajudar mesmo. São amigos e profissionais incríveis”.

Depois da temporada no Rio de Janeiro, “Camille e Rodin” ainda fará algumas viagens pelo país. Há compromissos agendados até agosto, embora Leopoldo acredite que a peça possa ser retomada uma vez ou outra no futuro. No segundo semestre, ele ainda quer estrear outro espetáculo, novamente no Rio. Se está cansado e precisa dar um tempo, o ator ainda não se deu conta de que os cronogramas não permitem isso. Ou percebeu e se boicotou de propósito. “Eu adoro teatro, né?”.