O encontro do Teatro em Cena com a Letícia Colin se dá nos bastidores de “O Grande Circo Místico”, o musical que se apropria do poema do Jorge de Lima e do álbum de Chico Buarque e Edu Lobo para sua trama. São 19h de uma sexta-feira e o elenco começa a chegar para a sessão das 21h no Theatro Net Rio, em Copacabana. A protagonista da peça recebe o site no camarim que divide com outros três atores: “pode ser aqui mesmo?”. Durante toda a entrevista, ela se maquia, mas com o cuidado de responder olhando para o repórter. Aproveita quando ele faz as perguntas para se encarar no espelho. Sua colega de camarim, Luciana Pandolfo, questiona por que ela está se maquiando antes do aquecimento, e Letícia pergunta ao jornalista: “vai ter foto?”. Vai. Então, por isso.

Letícia Colin no camarim de "O Grande Circo Místico": preparando-se para viver Beatriz. (Foto: Leonardo Torres)
Letícia Colin no camarim de “O Grande Circo Místico”: preparando-se para viver Beatriz. (Foto: Leonardo Torres)

“O Grande Circo Místico” é o quarto musical teatral da carreira da atriz, mas seu primeiro brasileiro e com o diretor João Fonseca (em cartaz também com “Cássia Eller – O Musical”). Antes, ela fez “O Despertar da Primavera”, “Hair” e “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força” – todos da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. Aos 24 anos, pode gabar-se de uma carreira de 16 anos, com passagens na TV, no teatro e no cinema. Começou aos oito, fazendo comerciais. Filha de professores, foi levada a uma agência por sugestão de terceiros, atentos à sua personalidade extrovertida. Aos dez, conseguiu seu primeiro papel dramatúrgico, no seriado “Sandy & Junior”, e em seguida emendou “Malhação” na TV Globo. Depois, fez “Floribella” na Band e um trabalho atrás do outro na Record: foram quatro até retornar à Globo na novela “Além do Horizonte”, no ano passado. O público a viu em diversas fases da vida. “É engraçado, porque você ganha uma série de parentes, que cobram, acompanham, comparam. É uma exposição”, analisa a paulista. “Mas eu nunca dei um pulo além do que estava vivendo. Nunca me fez mal. Descobri coisas junto com meus personagens. Eu me lembro muito disso: dei meu primeiro beijo em um set e uma semana depois na vida real”.

Ela não se arrepende de ter começado tão cedo. Acredita que ganhou tempo e conhecimento por ter sido uma “atriz mirim”. Além disso, ressalta que sempre pegou papeis consistentes, que lhe permitiam fugir do estereótipo de criança ou adolescente apenas bonitinha e engraçadinha. “Sempre foram personagens fortes. Até em ‘Malhação’, era uma menina de fibra. Tenho essa tendência”, aponta a atriz, que fez uma vilã na novela “Luz do Sol” (2007) e uma vítima de pedofilia em “Chamas da Vida” (2008). “Depois, esse lance de fazer teatro também dá um respeito, né? Até para mim mesma. Sinto-me muito mais atriz por sempre estar próxima ao teatro. Os diretores e produtores de elenco reconhecem que continuo fazendo teatro, e isso é bom”. Esse é outro ponto que ela destaca: por ter começado criança, teve mais tempo para mostrar seu trabalho e conhecer os profissionais do meio. “Ganhei em tempo. Hoje em dia, eu vejo que essa carreira é muito difícil para as pessoas. Sempre estive empregada, graças a Deus”.

De cima para baixo, da esquerda para direita, em sentido horário: em "Sandy & Junior", "Malhação", "Floribella" e "O Despertar da Primavera". (Fotos: Reprodução / Internet)
De cima para baixo, da esquerda para direita, em sentido horário: em “Sandy & Junior”, “Malhação”, “Floribella” e “O Despertar da Primavera”. (Fotos: Reprodução / Internet)

Claro que nem tudo foi uma maravilha. Ela admite que teve momentos de insegurança e incerteza durante a trajetória. “Tem fases em que você ganha menos dinheiro, que desconfia se fez a escolha certa, se está feliz. É uma profissão difícil, de muita competição”. E cheia de escolhas. No último ano do Ensino Médio, teve que abandonar o colégio, porque gravava todos os dias. Terminou a escola em um supletivo, embora fosse excelente aluna. Quando chegou sua vez de prestar vestibular, optou por Jornalismo. Cursou cinco períodos na PUC e trancou para “não voltar nunca mais”. “Foi na época do ‘Despertar’. Estava super pesado. Esse dilema para mim sempre foi muito forte. Sempre trabalhei, então era muito diferente dos meus amigos. Ter que estudar com uma galera que estava começando… era difícil me adaptar. A gente que é ator tem uma vida muito diferente, começa a ficar cada vez mais sensível, e eu tinha um pouco de dificuldade para entrar em uma coisa mais acadêmica. Eu já era muito madura”, e ela mesma ri com a declaração. “Eu me achava, com 20 anos, super madura, né?”.

Hoje em dia, está em uma posição agradável. Estuda, mas da sua maneira. Por ter trilhado uma carreira de musicais (acidentalmente, porque ela garante que não era sua intenção no início), investe muito em aulas de canto e dança. Lê Shakespeare e “coisas de teatro”. “Cada ano experimento um professor novo. Estou sempre me reciclando”. Para “O Grande Circo Místico”, teve aulas de tecido acrobático e de balé, e entrou em contato com o universo circense. Durante o preparo para o espetáculo, também gravava a novela “Além do Horizonte” e, iniciada a temporada, ainda rodou o filme “Ponte Aérea” com Caio Blat. “Foi difícil pra caramba [conciliar os três]. Mas estava com muita vontade de fazer esse filme e a peça. As produções foram muito generosas, compreenderam e facilitaram minha vida. Tem que ter colaboração, porque sozinha é difícil”. Para dar conta de tanto trabalho e contornar o cansaço, ela recorre a métodos de reenergização alternativa: meditação, yoga, shiatsu, acupuntura.

(Foto: Leonardo Torres)
(Foto: Leonardo Torres)

No filme, ela interpreta uma publicitária de 30 anos, que é viciada em trabalho e não consegue se relacionar com ninguém. Não é o caso da atriz. Ela namora o também o ator Ravel Andrade, com quem contracena no longa “Não Pare na Pista”, cinebiografia do Paulo Coelho, com estreia marcada para agosto. “Eu aprendi [a me relacionar], mas acho que é um desafio, né? Aprendi a delegar melhor meu tempo, dizer ‘chega, agora vou relaxar’. Isso também é amadurecer: não viver só para o trabalho. Até porque preciso ter experiências de vida para trabalhar”.

Tais experiências, aliás, ela quer usar em projetos autorais. Letícia tem vontade de começar a se produzir em espetáculos inéditos. Admite que não é boa com a escrita, mas tem algumas ideias, e alguém poderia passá-las para o papel. Inspirada na atriz Isabel Lobo, filha de Edu Lobo e idealizadora do musical “O Grande Circo Místico”, ela tem planos para criar e desenvolver um musical autoral. “Isso ainda é muito pouco feito. Já tem esse mercado pronto para fazer, com atores, patrocínios… Acho que a gente pode se aventurar e escrever coisas que a gente tenha vontade de falar, não só por sermos brasileiros, mas coisas da nossa vida”.

Enquanto isso não acontece, ela se dedica ao “Circo”, onde “tem a oportunidade de melhorar a cada dia”. A temporada no Theatro Net Rio vai até 27 de julho, com sessões quinta e sexta às 21h, sábado às 21h30 e domingo às 20h. “Não tem nada fácil aqui. Esses personagens, essas histórias, essas músicas, é tudo elaborado pra caramba. Estou muito feliz”. Que bom, porque está na hora do aquecimento.