(Foto: Reprodução/Internet)
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Quando um repórter da Billboard perguntou se ela pensava em escrever uma biografia, Liza Minelli foi enfática: “Não tenho tempo! Acredito que farei isso quando me aposentar”. A entrevista aconteceu em 2012, mas pouco mudou de lá para cá. A cantora e atriz continua na ativa, sem espaço na agenda para escrever suas memórias. Completando 68 anos na quarta (12/3), ela tem três shows para fazer na Califórnia até o fim do mês. É uma senhora, sim, mas sem cadeira de balanço e crochê. Já são 65 anos de carreira, considerando sua aparição na cena final do filme “A Noiva Desconhecida” (In the Good Old Summertime, 1949), estrelado pela mãe Judy Garland. Desde então, não parou mais. Nem quando quebrou o pulso, no ano passado, Liza abandonou os palcos. Fez um show em Nova York assim mesmo (e correu para o hospital em seguida). Se fosse brasileira, diriam: “não desiste nunca”. Mas ela é quase. Diz que o Brasil é sua segunda casa. Quando se aposentar, além da biografia, quer vir morar aqui.

Afinal, no Brasil, ela poderia assistir à Bibi Ferreira com mais frequência. Fã de música brasileira, Liza viu o primeiro show da Bibi em Nova York, no ano passado, e ficou profundamente impressionada. Não resistiu, subiu no palco, deu uma palinha de “New York, New York” e rasgou elogios à dama do teatro brasileiro. “Nunca na minha vida vi alguém como você. Nunca. E eu vi muita coisa!”, disse, emocionada, a estrela que já cantou com Frank Sinatra e Luciano Pavarotti. Mas, com Bibi, há ainda uma conexão afetiva: as duas têm em comum o início precoce da carreira, graças ao incentivo dos pais, artistas consagrados.

Bibi Ferreira e Liza Minelli em show no Lincoln Center, em Nova York, em 2013. (Foto: Reprodução/Estadão)
Bibi Ferreira e Liza Minelli em show no Lincoln Center, em Nova York, em 2013. (Foto: Reprodução/Estadão)

Esse, porém, é só um dos muitos pontos que ligam Liza ao Brasil. Vencedora de um Oscar (por “Cabaret”), um Emmy (por “Liza with a Z”), dois Globo de Ouro (por “A Time To Live” e “Cabaret”) e três Tony (por “Flora, the Red Menace”, “Liza at the Winter Garden” e “The Act”), a americana inspirou gerações de artistas brasileiros. Claudia Raia, que fez questão de tietá-la em sua última vinda ao país, é só um dos exemplos. A professora de teatro musical Maiza Tempesta acredita que Liza inspirou toda sua geração. “Ela foi a diva do coreógrafo Bob Fosse, e todos absorveram este estilo de dançar, que permanece até hoje. Pode-se perceber esta influência em vários coreógrafos da atualidade. Liza permanece como diva maior, apesar de todos os altos e baixos em sua carreira e vida pessoal”, destaca ao Teatro em Cena. Maiza lembra ainda que, muito antes da Internet possibilitar a troca de informações, ela e os amigos se reuniam para assistir fitas VHS importadas, com gravações da Liza na TV. “Víamos incansavelmente. Todas queriam ser Liza. O estilo de dança da época era copiado por todos”.

O intercâmbio cultural tinha como grande intermediador o coreógrafo americano Lennie Dale, radicado no Brasil. Liza grudou nele desde a primeira vez que o viu, encantada com sua performance. “Ela ficou louca com o Lennie, com a dança dele”, recorda Ciro Barcelos, parceiro do dançarino no grupo Dzi Croquettes. Lennie logo foi convidado para dirigir os shows dela nos EUA e eles se tornaram amigos. Enquanto isso, por aqui, ele ensinava aos brasileiros os passos que estavam na moda na Broadway. Foi realmente uma época de troca mútua de influências.

Ele, no entanto, não foi o único artista que chamou a atenção dela no Brasil. Liza, como se sabe, é madrinha do grupo Dzi Croquettes. Ela assistiu ao espetáculo de contracultura e androgenia pela primeira vez no Rio de Janeiro, no início da década de 1970, e sua percepção de arte mudou para sempre. Já um ícone gay, ela logo abraçou o grupo de 13 atores, e convidou Ciro e Lennie para gravarem com ela uma performance para o “Fantástico”. Quando eles foram exilados, Liza exerceu papel fundamental para a carreira internacional do grupo. “Ela deu um grande empurrão na nossa chegada à Paris. Estava presente no dia da estreia, e se tornou uma grande amiga nossa. Foi assumidamente uma madrinha”, conta Ciro. Deu certo: eles fizeram muito sucesso em sua temporada francesa.

Liza Minelli em dois momentos com Dzi Croquettes: em 1974 e em 2012, com a nova formação do grupo. (Foto: Montagem / Reprodução /Internet)
Liza Minelli em dois momentos com Dzi Croquettes: em 1974 e em 2012, com a nova formação do grupo. (Foto: Montagem / Reprodução /Internet)

Uma história curiosa é que, em Paris, a americana fugiu do seu staff e passou um fim de semana escondida no hotel em que o Dzi estava hospedado. “Não era um hotel à altura de uma Liza Minelli, claro”, Ciro diz entre risos. “Ficou todo mundo procurando ela feito doido, e ela lá com a gente se divertindo”. Passados quarenta anos e a morte de muitos integrantes, o carinho continuou. Convidada para dar um depoimento no documentário sobre o grupo, dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, ela aceitou imediatamente. Houve alguma incompatibilidade de agendas, é verdade, mas nada que a deixasse de fora. “Desde o início, ela quis participar. Mas sua agenda estava muito louca com a turnê pela Europa. Demorou quase um ano para acertarmos”, revela Raphael. Nesse período, a cantora e atriz marcou e desmarcou a entrevista algumas vezes.

Por fim, Raphael teve que dar um ultimato. “Falamos que não tínhamos mais dinheiro para marcar locação, carro, chofer, porque o orçamento estava quase esgotado. O filme estava praticamente editado, e só faltava a parte dela”. O que Liza fez? Recebeu os dois diretores em sua casa em Manhattan, no intervalo de um ensaio. Foi uma exceção, porque ela não costuma abrir a porta da residência para entrevistas. O encontro durou quase uma hora, e foi produtivo. “Ajudou muito o fato de ela ter sido amiga do Lennie Dale. Liza tem muito carinho pelo Brasil. No documentário, ela diz que descobrir o ritmo brasileiro foi como descobrir o ritmo do coração. É uma fala que acho linda!”, destaca o cineasta, que venceu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o Festival do Rio e a Mostra Internacional de São Paulo com esse filme.

Claudia Raia e Liza Minelli em São Paulo em 2012 (Foto: Reprodução/Internet)
Claudia Raia e Liza Minelli em São Paulo em 2012 (Foto: Reprodução/Internet)

E esse não foi o último contato da estrela com o Brasil. Em 2012, ela voltou ao país para shows em São Paulo e no Rio de Janeiro, com a turnê do álbum “Confessions”. Curiosa que só ela, fez questão de ver à nova montagem do Dzi Croquettes, que traz uma singela homenagem à madrinha. Ciro Barcelos ainda estava montando a peça “Em Bandália”, mas teve que fazer uma apresentação fechada para a amiga. A sessão ocorreu na casa da promoter Ana Maria Tornaghi, no Rio, com a presença de Luiz Carlos Miele e Alessandra Maestrini, que cantou para Liza. “Foi muito bacana. No outro dia, ela passou no ensaio no teatro, subiu no palco e me deu várias dicas. Arregaçou as mangas e mostrou que continua a mesma”, ressalta Ciro. “Mais velha, mas com a mesma energia, a mesma dinâmica. Ela tem uma energia incrível. Quando fala com você, te devora com os olhos”.

Em São Paulo, Liza Minelli foi recebida por Claudia Raia. A atriz, que estrelou a montagem brasileira de “Cabaret” no ano anterior, foi conhecê-la no hotel em que a americana estava hospedada. Totalmente fã, ela se emocionou, tirou fotos e pegou autógrafo. Sem essa sorte, Maiza Tempesta não esteve com o ídolo, mas faz questão de mostrar seu trabalho para os alunos mais jovens. “Todos que se interessam por teatro musical devem conhecer a fundo quais foram as grandes pessoas que antecederam o que é visto nos palcos hoje em dia”, defende. “Há muito para ser estudado, e com certeza Liza Minelli deve constar no topo da lista”.

Liza Minelli e Brasil: uma relação de amor. (Foto: Reprodução/Internet)
Liza Minelli e Brasil: uma relação de amor. (Foto: Reprodução/Internet)