Luana caracterizada como Isabel. (Foto: Divulgação / Nana Moraes)
Luana caracterizada como Isabel. (Foto: Divulgação / Nana Moraes)

Isabel tem mania de explicação. Gosta de decifrar o mundo, e descontrói as palavras do dia a dia para compreendê-las à sua maneira. Nada passa despercebido ao seu olhar curioso. Pergunta sobre tudo, e passa o tempo todo explicando o que os demais já sabem. É claro: irrita as pessoas. Mas suas descobertas revelam o poder de realizar seus sonhos… e de entender que aquilo que não tem explicação não é mesmo para ser explicado. Melhor sentir.

Esse é o mote da peça musical infantil “Mania de Explicação”, adaptada do livro homônimo da escritora Adriana Falcão. Mas optou-se por começar a reportagem assim por outro motivo. É um ótimo paralelo com a atriz Luana Piovani, que protagoniza o espetáculo. Assim como Isabel, ela também irrita (muit)as pessoas, e realiza seus sonhos a partir de suas descobertas. No caso, a grande descoberta foi o palco, que abriu um mundo de opções para a paulistana. Desde 2003, ela idealiza e produz com frequência de três a quatro anos seus próprios espetáculos infantis. “Quando fiz minha primeira peça, descobri o milagre e o sagrado que o teatro representa na minha vida”, diz em entrevista ao Teatro em Cena.

Ao contrário do público para o qual apresenta “Mania de Explicação”, Luana não costumava ir ao teatro quando era criança. Ela viveu dos 2 aos 12 anos em Jaboticabal, cidade do interior paulista, que na época não tinha nem cinema nem teatro. Foi só quando se mudou para a capital e iniciou a carreira de atriz que recuperou o tempo perdido. “Acho que a gente é muito responsável pelo nosso conhecimento, pela nossa cultura, pelas nossas vontades e anseios de aprender coisas novas. A gente vive para evoluir. Adquiri todas as coisas que meus pais me mostraram e me incentivaram, e o que faltou eu corri atrás”, avalia a atriz, que estourou na TV aos 16 anos, na novela “Sex Appeal”. Na sequência, fez trabalhos importantes, como “Quatro Por Quatro”, “Malhação”, “Labirinto”, “Suave Veneno” e “O Quinto dos Infernos”.

O primeiro espetáculo infantil, no entanto, só veio em 2003, quando Luana se afastou das novelas, e optou por trabalhos mais curtos na TV, como participações em séries e especiais de fim de ano. Assim, sua presença nos palcos se tornou mais constante. Apresentou “Alice no País das Maravilhas”, “O Pequeno Príncipe” e “O Soldadinho e a Bailarina”, além de textos adultos. Mas os infantis têm um diferencial: são levantados por ela, por meio da Luana Piovani Produções Artísticas. É ela mesma quem escolhe os textos, adquire os direitos, escreve os projetos e agenda reuniões com possíveis patrocinadores. “É um trabalho longo, que começa de três a quatro anos antes da estreia. Faço um projeto bem lúdico, colorido e com um tamanho diferente para chamar a atenção. Algo que não possa ser empilhado com os outros”, conta a artista, que também escolhe o diretor e, com ele, monta a equipe criativa. “Boto meu terno, vou ao escritório e marco dez, quinze, vinte reuniões, das quais recebo três ou quatro ‘sim’, que me ajudam a realizar esse sonho”.

“Mania de Explicação” é a realização da vez, novamente em parceria com o diretor Gabriel Villela, a quem Luana Piovani é só elogios. Os dois trabalharam juntos em “O Soldadinho e a Bailarina” em 2010 e foi natural e prazeroso dar continuidade ao time. “Continuo bebendo na melhor das fontes. Para absorver o muito que o Gabriel nos dá, a gente precisa de no mínimo 20 anos junto a ele. É muito bom quando você está segura das pessoas que te cercam”. Outra segurança é o texto escolhido. Desde “Soldadinho”, a produtora sabia que seu próximo infantil seria essa obra da Adriana Falcão. Ela queria levantar um espetáculo de autoria brasileira e, fã da escritora e do livro, não pensou duas vezes. “A Adriana é uma romântica contemporânea, porque é muito poetisa e lúdica, ao mesmo tempo em que é muito moderna. Não é uma coisa rococó”.

Luana Piovani e Felipe Brum em "Mania de Explicação". (Foto: Divulgação / Nana Moraes)
Luana Piovani e Felipe Brum em “Mania de Explicação”. (Foto: Divulgação / Nana Moraes)

Para a adaptação da obra aos palcos, foram valorizados artifícios como a musicalidade, as cores e os elementos circenses. Com a experiência de outros três espetáculos infantis, Luana Piovani sabe que criança se liga muito na parte musical. Por isso, a peça tem música ao vivo, executada pelo próprio elenco. Parte da trilha é composta de músicas do Raul Seixas, o que deve agradar também aos pais. “Essas canções tiveram impacto de contraste durante o regime de exceção que vivemos na década de 1970. Mas hoje ilustram e colorem o pensamento da nossa protagonista, uma menina iconoclasta na medida em que ela não se enquadra nos padrões normais de perguntas e respostas de uma criança da sua idade”, explicita o diretor.

Além do Raul Seixas, outro atrativo para os pais é a realidade retratada na peça. Afinal, todos são questionados diariamente pelos filhos. É natural da fase de descobertas das crianças. Agora que tem um filho em casa, o pequeno Dom, Luana se revela ainda mais atenta a outras nuances que podem – e devem – impactar os responsáveis que assistirem ao espetáculo. “A rotina transforma a maneira como a gente se relaciona com os filhos e as coisas importantes da vida. Os pais vão ver na peça o que não querem ser, porque a Isabel se sente pouco incentivada nas questões dela”, avalia a atriz, que ensaiou por quase três meses antes da estreia. “Apesar da vida atribulada, a gente não pode ser ausente na vida dos filhos, senão criamos pessoas frias e frustradas. Temos que incentivar esse mundo colorido e lúdico que cerca o entorno da criança”.

Ela sabe que às vezes os pais não tem mesmo essa disponibilidade – ou recursos necessários para tal. Lamenta. Diz que há uma série de reivindicações a serem feitas antes da cultura, como educação e saúde. No seu discurso, aborda com afinco o incentivo à leitura e desaprova a má remuneração dos professores. Mas também fala que é uma entusiasmada de nascença. Mesmo que não veja suas montagens lotarem como antigamente, acredita que o que fica é muito importante. “A criança que tem acesso à educação e à cultura, e é incentivada a brincar, tende a ser um humano mais bem resolvido, generoso e consciente”.

Não é só discurso. A atriz faz questão de ser uma mãe presente e fazer programas de criança. “Reza a lenda que o brasileiro está com mais dinheiro no fim do mês, mas deve gastar com outras coisas. Minha sensação é que agora o pai faz menos programa de criança e insere mais a criança nos programas dele”, reclama. Com dois anos, seu filho, ao contrário dela na mesma idade, é frequentador de teatro. No ano passado, viu quatro peças infantis. Uma que especialmente agradou foi “A Menina Edith e a Velha Sentada”, com texto e direção do Lázaro Ramos – ou Lazinho, como ela diz. “É uma peça linda, que o Dom quis subir no palco. Depois de 15 minutos, tive que ficar segurando a perninha dele, porque estava louco para subir”, lembra. “Ele é assim. Fica no colo nos dez primeiros minutos, depois levanta, começa a dançar e já vai indo em direção à escada que dá para o palco. É bem animado”.

Em dois momentos em família. (Foto: Reprodução / Instagram)
Em dois momentos em família. (Foto: Reprodução / Instagram)

Mãe, mulher, atriz e produtora, Luana deveria ter participado do “Se Vira dos 30” em vez do “Dança dos Famosos” no “Domingão do Faustão”. Além do infantil, fará a turnê da peça “Sonhos de um Sedutor” e filmará os longas “Réveillon” e “Berenice Procura” neste ano. Essa entrevista, por exemplo, quase foi feita por e-mail por causa da agenda atribulada dela. Depois, ela tentou encaixar uma conversa telefônica no intervalo de um dia de ensaios – e não rolou. “Tenho que me desdobrar mais entre as minhas funções, porque arrumei um marido [o surfista Pedro Scooby] e um filho, e meu dia continua tendo 24hs”. Por fim, falou com o site durante uma corrida de táxi. E foi mais amável do que as pessoas possam imaginar. Muito atenciosa – até mesmo quando tinha que interromper o raciocínio para guiar o taxista. “Desculpa, mas é que ele está meio perdido com essas obras”. Luana é assim. Encontra tempo para tudo no seu dia que não ganha mais horas. Como? Sabe-se lá. Aquilo que não tem explicação não é mesmo para ser explicado. Melhor sentir.