resenha-4estrelas

No Rio de Janeiro para três apresentações no Festival Dois Pontos, o espetáculo argentino “Luisa Se Estrella Contra Su Casa” trata com humor um dos momentos mais difíceis da vida: o luto. A peça é inteiramente um fluxo de pensamento da personagem-título, profundamente abalada pela morte do namorado Pedro em um acidente de moto. Solitária, ela conversa com uma lata do pó de limpeza Odex e, em sua imaginação, com o namorado morto. O único contato humano vem do vizinho – que ela não suporta, porque também está triste e passa o dia tocando a mesma música no violão.

"Luisa Se Estrella Contra Su Casa": na programação do Festival Dois Pontos (Foto: Divulgação)
“Luisa Se Estrella Contra Su Casa”: na programação do Festival Dois Pontos (Foto: Divulgação)

A encenação preza pelo surreal, a começar pela peruca de cabelo de boneca da protagonista. Um ator interpreta Odex, com uma lata na cabeça, como uma máscara. O namorado morto entra e sai de cena com naturalidade, dizendo que não sente nada, nem frio, nem calor, e quer sua escova de dentes. E, em dado momento, um animal vivo aparece no palco, o que subverte ainda mais qualquer noção de realidade. Mas é a protagonista Luciana Mastromauro que dá o tom do espetáculo. Ótima atriz, ela dispara tudo em um ritmo acelerado, algo por si só já fora dos padrões reais, mostrando como a cabeça da personagem está a mil.

O texto e a direção são do jovem Ariel Farace, em trabalho realizado com a Cia. Vilmadiamente. A dramaturgia tem ótimos momentos, com repetições, delírios e frases de efeito bem encaixadas. Farace também é co-autor do cenário, com Cecilia Zuvialde, que é todo feito com caixas de papelão. As quatro paredes da casa dela começam encaixadas, formando um cubículo e, quando são abertas, ampliam o espaço e traduzem a dimensão da mente de Luisa. Só a iluminação (de Matías Sendón e Ricardo Sica) que é sofrida e pouco elaborada.

“Luisa Se Estrella Contra Su Casa”, apresentado em espanhol com legendas em português, é ótima oportunidade para entrar em contato com a cena teatral argentina contemporânea. Algumas referências são muito específicas, como o supermercado Coto, repetido incessantemente, mas não comprometem a compreensão de ninguém.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 20h. R$ 10. 50 min. Classificação: 12 anos. Até 22 de março. Espaço Cultural Sergio Porto –Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.