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Mexer em textos clássicos é complicado, e transformar em musical “O Beijo No Asfalto” (1960), de Nelson Rodrigues (1912-1980), personifica essa afirmação. Os responsáveis pela ideia, e missão, são o ator Claudio Lins (de “Elis, a Musical”) e o diretor João Fonseca (de “Bilac Vê Estrelas”), que tem como característica a coragem e ousadia para dar caras novas a textos consagrados – “R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida” é um exemplo. Aqui, em “O Beijo No Asfalto – O Musical”, Claudio e João se unem para potencializar os momentos mais importantes da conhecida história de Arandir, com números musicais conduzidos por canções inéditas, escritas especialmente para essa montagem.

(Foto: Divulgação)
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Considerado o maior sucesso de Nelson Rodrigues, o espetáculo já provou tudo que tinha para provar e não precisava de interseções, principalmente porque o texto ainda se mantém atual, mais de 50 anos após sua estreia. É compreensível, no entanto, que assim como o cinema e até os quadrinhos, o teatro musical também queira se apropriar dessa história. “O Beijo no Asfalto” trata de preconceito, intolerância, perseguição e jornalismo marrom. Na trama, Arandir vê um homem ser atropelado por um bonde na Praça da Bandeira, em plena luz do dia, e corre em seu socorro. O moribundo pede um beijo na boca, e Arandir não o nega. A cena é vista pelo sogro Aprígio e pelo jornalista Amado Ribeiro, que se junta ao delegado Cunha para explorar o caso, acima da verdade e do bem e do mal, para vender jornais. Acusado de manter um relacionamento extraconjugal com o morto e até de tê-lo matado, Arandir assiste à própria ruína, com a perda do emprego, a condenação popular e a falta de confiança da própria esposa, Selminha, induzida por tudo que está ouvindo na mídia.

Na montagem de Claudio e João, 16 músicas compõe a decadência do personagem. O repertório é resultado de quatro anos de pesquisa de Claudio Lins, interessado na sonoridade da década de 60. Algumas das canções trazem samples de artistas antigos, em especial Dolores Duran (1930-1959). Umas melhores do que outras, as músicas passam por diferentes gêneros, alguns mais contemporâneos, como funk e rap, o que diverte. A cara de João Fonseca botar algo assim em cena, mas os méritos são da diretora musical Délia Fischer (de “Chacrinha – O Musical”), que acaba surpreendendo o espectador a cada número. O problema é que nem todas as canções ajudam a contar a história: muitas aparecem no meio das cenas como interrupções. Os melhores números são os de Laila Garin (de “Elis, a Musical”), intérprete de Selminha, pois as canções potencializam o sofrimento da personagem de maneira admirável.

(Foto: Divulgação)
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Laila é o destaque do elenco, repetindo a parceria cênica com Claudio Lins: os dois também foram par romântico em “Elis, a Musical”. Entre os outros 11 atores, também estão em papeis importantes Yasmin Gomlevsky (de “Anti-Nelson Rodrigues”) como Dália, a irmã atraída por Arandir, Gracindo Jr. (de “Canastrões”) como Aprígio, Thelmo Fernandes (de “S’imbora, o Musical”) como Amado Ribeiro e Claudio Tovar (dos Dzi Croquettes) como o delegado. Vocalmente, destaca-se Yasmin em seus dois solos. É importante citar que o elenco original de “O Beijo no Asfalto” contava com Sérgio Britto (1923-2011), Mário Lago (1911-2002), Ítalo Rossi (1931-2011), Francisco Cuoco (em cartaz com “Electra”), Suely Franco (de “Elza & Fred”), Zilka Salaberry (1917-2005) e Fernanda Montenegro (de “Viver Sem Tempos Mortos”), que encomendou o texto ao dramaturgo. Os equivalentes no formato musical cumprem a missão com méritos.

Produção de médio porte, o espetáculo tem cenografia interessante de Nello Marrese, com estruturas móveis e foco em exemplares de jornais. Na reta final, especialmente, quando Thelmo Fernandes tem um número de destaque, as folhas de periódicos proporcionam um efeito estético singular. Os figurinos são assinados pelo próprio Claudio Tovar e contribuem para marcação do emocional dos personagens. A iluminação satisfatória é de Luis Paulo Nenén.

(Foto: Divulgação)
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Referência do teatro brasileiro, “O Beijo no Asfalto” incomoda, como bem gostava Nelson. A homofobia dos personagens é impressa em cada vírgula e provavelmente é mais desconfortável para os ouvidos de hoje do que em 1960, graças às conquistas e aos avanços da chamada comunidade LGBT. Por isso, algumas escolhas do João Fonseca, ainda que bem intencionadas, parecem de mau gosto, pois acentuam o que já é suficientemente ofensivo. Nelson empurrava os limites ao máximo, então mais do que o que ele propõe é um risco de extrapolação. As entradas carnavalescas propostas pela direção, ainda que irônicas, somadas ao teor das letras de Claudio Lins, tendem a ser desagradáveis. Claro que o fim da história traz uma redenção para tudo isso, mas não justifica.

No mais, o formato musical ajuda a levar a história a um público novo, em uma embalagem atrativa. Além disso, é difícil não sair do teatro novamente apaixonado por Laila Garin, que supera as expectativas, sem qualquer resquício de sua inesquecível e tão recente Elis. Vale ver.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h; dom, 18h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 150 min. Classificação: 14 anos. Até 8 de novembro. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Centro. Tel: 2279-4027.