Mantenha Fora do Alcance do Bebê é o tem-que-ver do momento

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Vindo de São Paulo para o Rio, o espetáculo “Mantenha Fora do Alcance do Bebê” foi concebido originalmente para a 1ª Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Escrito pela dramaturga Silvia Gomez (de “Abra a Janela Antes de Começar”), ele se passa na sala de uma assistente social, onde uma mulher se submete a uma entrevista como parte do processo de adoção de um bebê. Se a sinopse parasse aí, não daria o tom do espetáculo. Mas ela continua: “enquanto isso, um lobo selvagem acompanha, em silêncio, o desenrolar da situação”. Oi? Sim, um lobo, ali, como quem não quer nada (e tudo quer, ao mesmo tempo), na entrevista.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

É o lobo que abre e encerra a apresentação. O ator Diego Dac (de “Sit Down Drama”) o interpreta, com uma máscara de bicho e roupa de assistente de escritório. Assim, híbrido, o animal causa estranheza logo na primeira cena, quando aparece, sem emitir som, sem trilha sonora, sem cenário, e faz uma coreografia. É a indicação do que está para começar: um espetáculo que, embora a dramaturga certamente tenha optado por tratar de alguns temas, é aberto a leituras variadas. Um lobo de roupa social dançando dá esse tipo de abertura.

Cabe à Débora Falabella (de “Contrações”) o papel da protagonista, a mulher que quer adotar uma criança. Socialmente desajustada, ela se esforça para não ter um ataque de nervos e preencher as lacunas que imagina ter que preencher no formulário da assistente social. A presença de um lobo na história possibilita que ela e a parceira de cena Anapaula Csernik (de “Mulher na Janela com Gato no Colo”), a assistente social, atuem um tom acima do real. Como o texto sugere, o encenador Eric Lenate (que trabalhou com Silvia em “O Céu 5 Minutos Antes da Tempestade”) opta por uma montagem menos naturalista, que serve justamente para mostrar que tudo que é tratado ali é mais comum do que o absurdo dos diálogos indica. O irreal põe o público em distanciamento para que, em seguida, perceba sua proximidade. Há um aproveitamento total das possibilidades dramatúrgicas, que tratam do consumo desenfreado, da burocracia estatal, dos males psicológicos contemporâneos, e da falta de humanidade. As falas nas quais a mulher descreve o bebê desejado e pergunta se “já pode levar”, como quem escolhe um produto na prateleira, são deliciosas. A maneira como as duas mulheres parecem cada uma em seu mundo, dialogando sem se comunicar, também instiga.

A montagem é muito atraente. O cenário (de Eric Lenate), que parece inexistir quando o lobo abre o espetáculo, depois se revela inteligente, com um telão, que literalmente dá cor às cenas e projeta vídeos comunicando outras informações da história. A estética visual é moderna. E todos os objetos entram e saem de maneira coreografada. Os figurinos, elaborados por Rosângela Ribeiro, são expressivos e já mereceriam aplausos apenas pela composição do lobo, que é perspicaz. Vale a pena ver.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua a sex, 20h30; sáb, 18h e 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para sócios do Sesc). 60 min. Classificação: 14 anos. De 13 até 30 de agosto. Espaço Sesc – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2548-1088.