O espetáculo “Beije Minha Lápide”, em cartaz no Centro Cultural Correios, abre com uma cena particularmente bela: Marco Nanini (de “Pterodátilos”) dentro de um enorme cubo de vidro, que exibe um videografismo similar à tinta colorida escorrendo. É quase uma performance à parte, e uma boa recepção. Na peça, o ator interpreta o escritor Bala, um fã do Oscar Wilde que é preso após quebrar a barreira de vidro que separa o túmulo do autor de sua legião de fãs no cemitério francês Père Lachaise. O cubo anteriormente citado funciona, durante toda a encenação, como sua cela.

(Foto: Divulgação)
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A ficção é inspirada na barreira real, colocada para impedir que os fãs de Wilde beijem seu túmulo e danifiquem a lápide com marcas de batom (daí o título). A obra teatral é resultado de uma parceria do Nanini, idealizador do projeto, com a Cia. Teatro Independente. A dramaturgia é de Jô Bilac (de “Conselho de Classe”) e o elenco é completado por Paulo Verlings (de “Conselho de Classe”), Júlia Marini e Carolina Pismel (ambas de “Cucaracha”). Até para quem não detém essa informação, é fácil associar o espetáculo a outros textos de Bilac. Sua marca está lá, de uma maneira positiva, ainda que sem a força de um “Conselho de Classe” (tampouco com essa pretensão). O texto é cheio de referências à vida e à obra de Oscar Wilde, mas sem comprometer o entendimento do espectador leigo – não por causa disso, pelo menos. Há momentos, sim, um pouco confusos, nos quais não se sabe aonde a peça quer chegar – reflexo da confusão mental do protagonista, que foge de qualquer padrão de comportamento. Mas o dramaturgo consegue amarrar a trama a tempo.

Na história, Bala faz jogo duro com a advogada (Carolina Pismel) que quer tirá-lo da prisão, só aceitando o serviço dela desde que ela redija uma carta dele para… Oscar Wilde. Paulo Verlings faz o carcereiro e Júlia Marini a filha do detento que, por sua vez, é guia turística do cemitério. O elenco inteiro está impecável – e Nanini, nem se fala. O talento e o poder deles todos em cena não é mais nenhum segredo. Somados à direção de Bel Garcia (de “Conselho de Classe”), que usa inteligentemente todo o espaço cênico para contar a história, a peça cresce. O cenário (de Daniela Thomas) traz poucas informações além do enorme cubo de vidro, que impressiona com o videografismo (de Júlio Parente), mas Bel utiliza os corredores do teatro e o gargarejo para contar a história. É uma boa saída, principalmente por causa daquela pilastra odiosa do Centro Cultural Correios bem no meio de tudo (quem foi o arquiteto genial?).

(Foto: Divulgação)
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Os figurinos (de Antônio Guedes) e a iluminação (de Beto Bruel) estabelecem a estética da peça, diante da ausência de maiores adereços cênicos. Predominam cores sóbrias e neutras, coerentes com a prisão e o cemitério, e estabelecendo, de alguma maneira, um distanciamento entre a história contada e a realidade. O texto e a direção também contribuem nesse quê de irreal, mas ele é acentuado principalmente pela estética.

“Beije Minha Lápide” não é uma biografia de Oscar Wilde, como muitos esperavam que fosse, mas tem todos os elementos para agradar os fãs do irlandês. Para quem não conhece sua vida e obra, é uma maneira de ser introduzido nesse universo. A temporada no Centro Cultural Correios, no Centro, vai até 5 de outubro, com sessões de sexta a domingo às 19h e ingressos a R$ 20. Depois, a peça fará temporada no Teatro Dulcina, também no Centro, entre 11 e 26 de outubro, nos mesmos dias e horários, pelo mesmo valor. A classificação é de 16 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.