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“The Mercy Seat” estreou no circuito off-Broadway pouco mais de um ano após o atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center. Escrita por Neil LaBute (de “Razões Para Ser Bonita”), a peça é considerada uma das primeiras respostas artísticas ao 11 de setembro de 2001, data eternizada na História. A trama se passa no dia seguinte à tragédia americana, em um apartamento com vista para onde ficava o WTC. É um espetáculo para dois atores. Lá fora, formavam o elenco Liev Schreiber (vencedor do Tony Award por “Glengarry Glen Ross”) e Sigourney Weaver (três vezes indicada ao Oscar nos anos 1980). A peça mostra os personagens Ben e Abby em um momento decisivo da vida deles. Sobrevivente por ter escapado do trabalho para trepar com a chefe, ele vê no episódio a chance de se passar por morto, enganar a mulher e as filhas, e começar uma vida nova com a amante. Por isso, a montagem brasileira recém-estreada e dirigida por Ivan Sugahara (de “Beija-me Como Nos Livros”) chama-se “Marco Zero”, com tradução de Gustavo Klein. O título faz referência ao ponto da vida do casal e ao espaço onde ficavam as torres.

(Foto: Dalton Valerio)
(Foto: Dalton Valerio)

Aqui, os papeis cabem satisfatoriamente aos atores da Cia. Os Dezequilibrados Tárik Puggina (de “Preciso Andar”), idealizador do projeto, e Letícia Isnard (de “Como É Cruel Viver Assim”). A encenação começa com Ben jogado no sofá aparentemente paralisado, enquanto a TV transmite a incessante cobertura do atentado terrorista. Mas essa não é uma história sobre o que passa no noticiário, e isso fica claro quando Abby chega da rua e entra no apartamento. O clima entre os dois é de desavença. Ele não atende o telefone, que não para de tocar. Ela, quer que ele atenda e fale com a mulher que deseja terminar. É interessante o contraste entre o que acontece fora e dentro do apartamento. Em meio à morte de tanta gente, com quem trabalhavam os dois personagens, ambos se dedicam a seu egocentrismo e egoísmo. Enquanto o mundo teme uma 3ª Guerra Mundial, eles discutem como será o próximo passo da relação, e o espectador vai tendo acesso ao quanto ela já está definhada após anos de encontros secretos. A tragédia, e a chance de algo novo, só põe luz no óbvio: será que valeria a pena?

O texto dá muitas voltas em torno dessa D.R. do casal de amantes, avançando e retrocedendo, sempre voltando ao mesmo ponto. Eles se agridem, transam, comem, ligam e desligam a TV, mas o diálogo não avança. Parece estagnado, e nem a direção, que põe os dois para se movimentarem bastante e ocuparem todos os cantos do cenário (a sala do apartamento dela) tira essa impressão. Letícia chega a esbravejar com os seios de fora, sem razão aparente, a não ser trazer algo novo à dinâmica da cena. Mas o desfecho da história – sem spoilers – faz valer a pena qualquer derrapada ou arrastada da própria trama.

(Foto: Dalton Valerio)
(Foto: Dalton Valerio)

Um ponto alto da montagem é a materialização da quarta parede, com o cenário de Aurora dos Campos. A encenação acontece cercada por painéis transparentes, mas perceptíveis: há literalmente uma parede entre o palco e o público. É como se a plateia espiasse. A cenografia é elogiável, cheia de decisões tão arriscadas quanto certeiras. A TV, que ficaria pendurada na parede que dá para os espectadores, em vez disso fica no chão, com a tela voltada para o teto. E funciona. A televisão, aliás, emitindo o discurso do George W. Bush e os comentários dos jornalistas é fundamental para que não se esqueça nunca o que está acontecendo. Caso contrário, poderia ser só mais uma D.R. decisiva, como tantas outras. A iluminação, de Paulo Cesar Medeiros, deixa seu papel coadjuvante em poucos momentos.

“Marco Zero” é sobre um momento de decisão na vida. É sobre coragem, sobre expectativa, sobre cobrança e também sobre avaliação do amor e do sexo. O que se tem é saudável? Agrega? Ou apenas se tornou cômodo? Quando há a chance de mudar, e recomeçar, esses questionamentos aparecem. Aqui, derrubada das Torres Gêmeas é pano de fundo para a derrubada de meias verdades.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: ter a dom, 19h. R$ 20. 75 min. Classificação: 16 anos. Até 20 de dezembro. Caixa Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena – Avenida Almirante Barroso, 25 – Centro. Tel: 3980-3815.