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As críticas sobre “Memórias de um Gigolô” em geral são regulares, nem boas nem más, o que é bastante justo, na verdade. Mas é interessante dizer que o novo musical do Miguel Falabella (de “O Homem de La Mancha”) é, sobretudo, corajoso, goste do que se vê ou não. Em tempos de alta dos musicais biográficos e das franquias internacionais, o artista escolheu adaptar um livro de Marcos Rey de temática controversa, publicado em 1968. A história é sobre o órfão Mariano, que cresceu criado em um bordel, se apaixonou pela prostituta Guadalupe, duelou com o endinheirado Esmeraldo para ficar com ela e, sem ofício, também a explorou, como um legítimo gigolô. Não é o amor romântico que conduz a trama, mas uma relação subversiva. O conteúdo tampouco sugere brechas dramatúrgicas para o formato musical, mas Falabella as criou e o resultado é um musical brasileiro ambientado em São Paulo entre os anos 30 e 50, com canções originais. Sim, ele poderia ter recorrido a sucessos do rádio para conquistar o público facilmente, mas optou por músicas inéditas de Josimar Carneiro, que assina a direção musical. Se isso não é coragem, o que é?

(Foto: Páprica Fotografia)
(Foto: Páprica Fotografia)

Tem mais. O trio protagonista é formado pelos atores Marcelo Serrado (de “É o Que Temos Pra Hoje”), Leonardo Miggiorin (de “La Mamma”) e Mariana Rios (de “Aldeia dos Ventos”) – rostos conhecidos da TV, mas que geram desconfiança automática para a função. Se Mariana tem uma carreira paralela de cantora e fez musicais antes da fama, os outros dois atores são assumidos estreantes para o público carioca. O que esperar disso? O pior, muitos diriam. Mas a verdade é que Miggiorin dá vida a um Mariano muito carismático e interpreta os números musicais do anti-herói satisfatoriamente. Serrado, como o antagonista, também não compromete. A verdade é que a maioria do repertório é cantada pelos outros 19 atores do elenco – um coro de sonoridade muito harmônica. Mariana, por exemplo, tem apenas dois ou três momentos de destaque cantando, porque a verdade é que “Memórias de um Gigolô” não precisava ser um musical, como bem disse ali em cima. É possível contar a história principal sem músicas, então a maioria das canções aparece em momentos secundários ilustrativos.

Ao todo, a peça traz 25 músicas, mas há certo padrão sonoro entre todas elas, proporcionando uma linearidade para a encenação. Quanto às coreografias, assinadas por Fernanda Chamma, não chegam a chamar atenção e, em alguns números, não passam de passinhos simples facilmente executados por qualquer um. Como as músicas não são exatamente contagiantes, combinadas às coreografias insípidas, resultam em performances muitas vezes sem vida. A exceção é mesmo Miggiorin, que aparenta dar seu máximo sempre que é solicitado.

(Foto: Páprica Fotografia)
(Foto: Páprica Fotografia)

Dividido em dois atos, o espetáculo se passa todo em um cenário fixo com uma escadaria central, que remete muito a “Alô, Dolly”, dos mesmos cenógrafos, Renato Theobaldo e Beto Rolnik. São adereços e ocasionais mobílias que definem os ambientes. Quanto aos figurinos de Ligia Rocha, imprimem bem a época e são variados, com capacidade de transformar sem vestígios os diversos personagens do ensemble. A iluminação de Drika Matheus, no entanto, é básica. O resultado é um espetáculo regular, sem qualquer equívoco significativo, mas tampouco com acertos impressionantes para um padrão de exigência razoável.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui e sex, 21h; sáb, 18h e 21h30; dom, 18h. R$ 50 a R$ 140. 130 min. Classificação: 10 anos. Até 17 de outubro. Teatro Oi Casa Grande – Rua Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.