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A história poderia ser da volta de Orestes à Argos, anos após seu exílio, pra vingar o assassinato do pai, o que em parte significa matar a própria mãe. Mas “Electra”, de Sófocles, foca na agonia da personagem-título, a irmã que o ajuda a fugir do palácio e se mantém como prisioneira e escrava da mãe e do novo rei, por não aceitar a morte paterna e não ser conivente com seus algozes. É sua rebeldia, angústia e sofrimento que marcam a trama, enquanto ela espera ansiosamente pelo retorno do irmão vingador. Em nova montagem dirigida por João Fonseca (de “Bilac Vê Estrelas”), a tragédia grega traz Ricardo Tozzi (de “Enfim, Nós”) e Rafaela Amado (de “A Falecida”) nos papéis dos irmãos.

Rafaela Amado na pele de Electra (Foto: Divulgação)
Rafaela Amado na pele de Electra (Foto: Divulgação)

O espetáculo marca mais uma parceria de João com Rafaela, uma das fundadoras da Cia. Fodidos e Privilegiados, com Camilla Amado (de “Como a Gente Gosta”), e também com a atriz Paula Sandroni (de “Chacrinha – O Musical”), uma das integrantes da companhia, que foi dirigida por muitos anos por Antônio Abujamra (1932-2015), homenageado com essa montagem. Camila interpreta a mãe e Paula a terceira irmã, Crisôtemis, que é conivente com os assassinos do pai para não perder o conforto e as mordomias do palácio. Os figurinos (de Marília Carneiro e Reinaldo Elias) marcam o contraste entre a maltrapilha e revoltada Electra e a fina e bem enquadrada Crisôtemis. Em dado momento da encenação, Electra ainda se suja com o que acredita ser as cinzas do irmão morto, o que a deixa ainda mais arrasada, enquanto a irmã circula com um buquê de flores. Em papeis menores, o elenco traz ainda Francisco Cuoco (de “Uma Vida no Teatro”), Mario Borges (de “O Olho Azul da Falecida”) e Alexandre Mofati (de “Horácio”) em trabalhos satisfatórios.

A dramaturgia é bastante exclamativa, tipicamente grega, mas em cena isso excede. A direção poderia ter podado um pouco a protagonista. Como única condutora do espetáculo, sempre vários tons acima dos demais, a personagem acaba resultando chata e irritante – e não deveria. Dona de um senso de justiça verossímil, ela não conquista empatia. É, na verdade, enfadonha, e na sessão de estreia foi possível ver algumas pessoas com dificuldade para manter os olhos abertos, o que atribuo a essa condição over da personagem atormentada, não dosada pela interpretação, o que acaba por distanciar o espectador em vez de gerar compaixão. É como se Rafaela, como Electra, seguisse uma cartilha de atuação diferente da naturalista dos demais atores do elenco.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Algo interessante da montagem é que ela acontece toda em cima e em torno de uma plataforma de madeira quadricular, com o espaço da arena coberto de serragem entre o amarronzado e o avinhado. O cenário (de Nello Marrese, também da Cia. Fodidos e Privilegiados) é sofisticado e convida o público à imaginação para compor o que é dito pelo texto, além de contribuir com a movimentação dos atores. Na cena da vingança final, a iluminação (de Luiz Paulo Neném) exerce suma importância, proporcionando um momento ímpar. A luz parece até gritar, na ausência de trilha sonora (de João Bittencourt) neste clímax. Nesta cena, aliás, Ricardo Tozzi e Camilla Amado dão um show de interpretação com o reencontro de mãe e filho, que vacila diante da iminência do matricídio.

Camilla, na verdade, impressiona em todas as entradas. O acerto de contas da mãe com a filha, explicando os motivos que a levaram a matar o marido (ele ter matado a filha Ifigênia – é uma família de assassinos, conclui-se), é outro grande momento. É muito convincente o que se vê, e é nesse momento que a dramaturgia deixa mais clara sua intenção de mostrar que todos têm seu senso de justiça próprio e variável, o que desencadeia um efeito dominó trágico. A impunidade momentânea da mãe, a vingança dos filhos, a corrupção da irmã traçam um paralelo interessante com o noticiário atual.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 20 (ou R$ 5 para associados Sesc). Classificação: 14 anos. Até 25 de outubro. Espaço Sesc – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.