O novo espetáculo da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho é totalmente comercial. “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”, em cartaz na Cidade das Artes, adapta o filme dos Trapalhões de 1981 para o formato musical e coloca Renato Aragão no teatro pela primeira vez. É quase um marketing de guerrilha, somada à trilha sonora desenvolvida por Chico Buarque. Não dá para ignorar nada disso, e eles nem querem que você ignore, mas, uma vez na plateia, é impossível não achar tudo muito bonito.

(Foto: Divulgação)
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Quem viu “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”, a assinatura anterior de Möeller e Botelho, nota as diferenças assim que as cortinas se abrem. O “musical do Didi” é uma superprodução, com cenários enormes (de Rogério Falcão), trocas de figurinos (de Luciana Buarque), e muita gente no palco. É esteticamente belo e alegre, um prazer para os olhos. Como a classificação etária é livre, famílias inteiras vão assistir ao espetáculo, que, pelas características citadas, é mesmo atrativo para todas as faixas de idade. Mas não funciona bem assim…

O musical começa com uma introdução sobre um manuscrito dos irmãos Grimm. Ela é curta, mas dura uma eternidade, e as crianças (que lotam a plateia) dão os primeiros sinais de inquietação já aí. Depois, é difícil recuperar a atenção delas, e são os pais e mães que se revelam os mais interessados na peça. A trama é ambientada em um circo decadente, administrado pelo Barão (Roberto Guilherme, de “Advocacia Segundo os Irmãos Marx”), que explora os artistas e embolsa qualquer possível lucro. Didi (Renato Aragão) é um comediante da trupe circense, que trabalha há anos sem receber um tostão, sob o pretexto de pagar uma dívida milionária com o contratante. Ele ganha o tal manuscrito de um mendigo cego e percebe o tesouro que tem em mãos, com a oportunidade de adaptar a história para uma peça e salvar o circo. Com uma mudança aqui, outra acolá, é a mesma essência do filme de J. B. Tanko.

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O problema aparece com os números musicais em si. É um mais lindo que o outro, mas cada performance parece uma pausa na história. Se “Piruetas”, por exemplo, está bem engrenada com o texto, outras como “Todos Juntos” são quase enfiadas a força na trama – ainda que um deleite para quem vê. Sabe-se que são as músicas que já estavam no filme, mas há diferença quando uma canção toca no fundo e quando ela é usada para conduzir a cena. Uma prova dessa quebra é a ausência de Renato Aragão, o protagonista, em quase todas as performances. Ele só “canta” a introdução de uma música, porque, bem, ele não canta. É tudo construído ao redor dele. Quem chama a atenção por suas habilidades são Giselle Prattes (de “Para Sempre Abba”) e Laís Lenci (de “Ivan Lins em Cena”), que tem uma voz especial.

O elenco é uma questão à parte. Dá para torcer o nariz quando se lê os nomes selecionados. Mas o nepotismo da escalação não compromete. Roberto Guilherme, Tadeu Mello (de “Bonifácio Bilhões”), e Dedé Santana menos ainda. Eles, aliás, são fundamentais para a caracterização do universo do Didi, por mais que representem escolhas improváveis para um musical. Estão todos muito coesos, na verdade. Adriana Garambone (de “Como Vencer Na Vida Sem Fazer Força”) se destaca na pele da vilã cômica Tigrana, como um dos elementos mais engraçados do espetáculo. João Gabriel Vasconcellos (de “Covil do Amor”) também merece elogios, principalmente pela cena no trapézio – uma técnica que teve que desenvolver para seu personagem.

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“Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical” conta ainda com um grupo de acrobatas, que colorem a maioria das performances com elementos circenses. Eles dão o tom de “show” ao espetáculo. Junto com os figurinos e os cenários, transformam o palco em um universo mágico, e só isso já valeria o ingresso. Crianças com menos de dez anos, no entanto, não perdoam. A peça é longa, os pequenos não conhecem as músicas (e, portanto, não vão fazer coro como os adultos), e não estão nem aí para o Didi. Só são contagiados quando Didi joga dinheiro para a plateia. Mais comercial que isso, não dava para ser. Mas dinheiro também é um prazer para os olhos, e todo mundo sai sorrindo do teatro.

O musical fica em cartaz na Cidade das Artes até 30 de novembro. Em outubro, as sessões são sempre sexta às 21h30, sábado às 20h e domingo às 18h. Em novembro, haverá variação nos dias: 8 e 9 (sábado e domingo), 12 e 13 (quarta e quinta), 18, 19 e 20 (terça, quarta e quinta), 27, 28, 29 e 30 (quinta a domingo). Terças, quartas e quintas é sempre às 20h30. Os ingressos variam de R$ 100 a R$ 150.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural