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(Foto: André Nicolau)
(Foto: André Nicolau)
Quando recebi o convite para escrever alguns parágrafos sobre a reestreia de “Cock-Briga de Galo”, eu tinha acabado de fechar a pauta no Teatro Sérgio Porto e ainda faltavam algumas semanas para começar a reensaiar o espetáculo que, após quase um ano do termino da primeira temporada, voltaria em cartaz com uma substituição.

Achei prudente esperar o processo de ensaios começar para escrever algo mais concreto, baseado na nova configuração do espetáculo e, durante as semanas que se seguiram, fiquei pensando no que escrever…

Pensei em escrever sobre a necessidade de me reapaixonar por esse texto, afinal… voltar em cartaz com uma peça um ano após o término da primeira temporada exige do ator, do artista, um novo olhar sobre a obra em questão. Procurei me lembrar do que havia me encantado quando vi a montagem em Nova Iorque em meados 2012.

Em meados de 2015, ainda achava pertinente falar sobre a fluidez do afeto e sobre a falta de necessidade de rotular e definir uma pessoa baseado nas suas experiências…. porém não achei o tópico interessante o suficiente para desenvolver um texto apenas sobre isso…

Pensei então em escrever sobre expectativas e sobre o desapego, pois, durante o processo de ensaio da nova temporada, com a entrada de um novo ator na peça, precisei me desapegar um pouco da construção do personagem que eu havia construído ano passado.

Se por um lado repensar o personagem em função de uma nova contracena nos tira da “zona de conforto” e exige de nós uma certa sabedoria para conseguir “desapegar”, por outro lado… quando o processo se instaura e passamos dos primeiros desconfortos… é uma delícia poder jogar o mesmo jogo de forma diferente… redescobrir pausas, intenções, possibilidades…. isso traz um frescor necessário para o espetáculo…. mas ainda assim não me sentia confortável de escrever sobre isso. Não me parecia ruim, mas ainda não era exatamente o que eu “achava que deveria falar sobre”, o que eu achava que devia ser o foco da matéria.

Após o término dos ensaios e após a estreia, recebi uma entrevista por e-mail para um site. Dentre as perguntas propostas pelo jornalista estavam algumas relacionadas a sexualidade do meu personagem na peça, o John, e a sexualidade do meu personagem na novela Sangue Bom, o Xande, e também uma relacionada a minha carreira na qual ele me perguntava se o motivo do meu afastamento da TV era relacionado a uma escolha minha de mergulhar mais a fundo no teatro ou não.

Comecei a responder ambas as perguntas explicando ao jornalista em questão que os dois personagens eram extremamente diferentes…. que o fato de ambos terem se relacionado afetivamente com pessoas do mesmo sexo não fazia deles seres humanos com a mesma natureza e com a mesma orientação sexual… e sobre como segui o movimento natural na minha carreira… que o fato de terem aparecido diversos projetos interessantes no teatro não significava que optei por me afastar da TV e em determinado momento, me peguei pensando sobre as questões da peça.

Mais do que uma peça sobre sexualidade, sobre a fluidez do afeto nos dias de hoje e sobre as milhões de possibilidades que temos de nos relacionar afetivamente durante a nossa vida, existe, na minha opinião, uma questão ainda maior: a falta de necessidade de rotular ou definir as pessoas baseado nas suas experiências e isso vai além da sexualidade, podendo ser aplicado à todas as áreas da vida de um ser humano.

Se por um lado na peça o meu personagem é prisioneiro de uma autoimagem, de um próprio preconceito que o impede de se relacionar com uma pessoa do sexo oposto, visto que ele se identifica como homossexual, curiosamente talvez eu esteja me deparando com uma questão similar no momento, mas em outra esfera.

Sempre me identifiquei como ator, essa é a minha natureza, a minha formação, a minha paixão…. e desde que comecei a produzir meus próprios projetos no teatro, em 2011, sempre pensei em produzir peças onde eu pudesse atuar…. porém esse ano tive duas experiências muito felizes onde idealizei e produzi espetáculos que não eram para mim como ator.

Fui questionado por algumas pessoas sobre essa opção de produzir projetos que não eram para mim como ator…. se estaria virando ou não um produtor…. e ao me deparar com essas perguntas, perguntas que de certo modo tinham como objetivo tentar definir de certo modo o momento atual da minha carreira, algumas questões me vieram imediatamente à cabeça.

Penso que voltar em cartaz com essa peça nesse momento da minha vida seja uma oportunidade de vivenciar de perto esse discurso tão brilhantemente transposto pelo Mike Bartlett. Como artista me interessam os projetos, o discurso, o pensamento e material humano presente neles… muito mais do que formatos ou veículos…. mas confesso que nem sempre é fácil bancar essa opinião, por mais genuína que seja, como no caso é para mim… em algum momento ainda existe um questionamento…. ainda mais em uma sociedade que tem a necessidade de te definir, de te rotular e onde, para a grande maioria, ser ator e fazer sucesso é sinônimo de fazer televisão. E todo mundo em algum momento tem a necessidade ou o desejo de aprovação.

Com a temporada em curso até 20 de Setembro percebo que talvez eu também esteja “em curso”, tentando cada vez mais me libertar de qualquer necessidade de definição e de aprovação.

Assim como para o John, para o Felipe não é um processo fácil… mas é um processo muito importante, diria que extremamente necessário…. então, me resta agradecer: que presente poder fazer essa peça nesse momento da minha vida!

Felipe Lima é ator e produtor.