(Foto: Brown / Marco Brendon)

Os atores Antonio Pitanga (de “A Última Sessão”) e Nando Cunha (de “Oi! Quer Teclar?”) estão em cartaz juntos com “Filho do Pai”, drama familiar em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. É a segunda temporada do espetáculo, que estreou no Sesc Tijuca. Diante do Mês da Consciência Negra, é inevitável pensarem também sobre o tema – embora o espetáculo não tenha nada a ver com isso. Mas um elenco totalmente negro, infelizmente, ainda é notícia.

– Vamos democratizar as relações humanas, onde somos a maioria deste Brasil. – Antonio Pitanga diz ao Teatro em Cena – Temos que entender que é importante termos boas referências para deixarmos de ser invisíveis e saber quem nos representa, seja na política, na TV, na cultura, enfim, em tudo! Quero ver mais cara preta em tudo! De 2016 pra cá é que estou tendo a oportunidade de, nos meus 60 anos de carreira, ver um conjunto de obras com a presença negra!

No espetáculo, ele e Nando Cunha vivem pai e filho. Na história, o filho está ensaiando a peça “Hamlet” quando ocorre um encontro constrangedor com o pai. Eles, nitidamente, são dois estranhos e o conflito é inevitável. O texto é de Maurício Witczak. “Ver esses dois grandes atores se deleitando com a minha dramaturgia é mais do que um privilégio, é um presente dos deuses do teatro”, diz o dramaturgo.

(Foto: Brown / Marco Brendon)

“Filho do Pai” é parte de um movimento, que vem sendo chamado de “black money”, no qual se reconhece a demanda por narrativas de personagens negros e por representatividade no palco. Atualmente, estão em cartaz “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”, “Teatro Breve de Garcia Lorca” e “Kondima”, com uma refugiada angolana no elenco. Há pouco tempo, houve ainda “Favela”, “Elza”, “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”, “Lima Entre Nós” e “Mercedes”, só para citar alguns. Nando Cunha destaca que a cena criada é também reflexo de uma iniciativa própria.

– Acho que o que falta é a oportunidade, pois já provamos que somos bons na música, na literatura, no cinema, no teatro, e nas novelas. Está acontecendo um movimento muito bacana, que somos nós negros produzindo nossos espetáculos, buscando nosso protagonismo, contando nossas histórias, tomando o leme do nosso navio. Acho que falta um olhar melhor dos realizadores para nós. A partir do momento que nos enxergarem como comuns, teremos oportunidades iguais. – defende Nando Cunha.

Enquanto isso não acontece, a evolução da representatividade é mesmo autônoma. As redes sociais facilitaram muito para que novas vozes fossem ouvidas e deixassem de ser invisibilizadas. O ator acredita que o mesmo ocorre no teatro: os negros estão fazendo acontecer. Ele só teme que haja um retrocesso, com o fortalecimento da extrema direita. “O mundo continua o mesmo e agora os inimigos saíram da toca, mostraram suas caras. Agora a briga é boa”, diz Nando, que revela ter sido muito impactado pelo recente filme de Spike Lee, “Infiltrado no Klan”, sobre o grupo de extermínio Ku Klux Klan, que atua até hoje nos Estados Unidos, acreditando na ideologia da “supremacia branca”. “Fiquei muito assustado. Essa extrema direita está fazendo uma polarização, com a chancela de um presidente incitando o ódio. Isso já chegou aqui no Brasil”.

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SERVIÇO: ter e qua, 21h. R$ 60. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 5 de dezembro. Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2239-1095.