Parte 2/2 da entrevista. Para ler a primeira parte, clique aqui.

Ney Latorraca em cena de "Entredentes" (Foto: Lenise Pinheiro)
Ney Latorraca em cena de “Entredentes” (Foto: Lenise Pinheiro)

Desde que saiu da Escola de Arte Dramática (EAD) nos anos 1960, Ney Latorraca estrelou obras de William Shakespeare e Nelson Rodrigues; “O Balcão” (que “revolucionou a história do teatro mundial, foi um escândalo”, nas palavras do próprio); o musical “Hair” (“com um elenco maravilhoso, uma loucura”); e trabalhou com Antunes Filho (“Bodas de Sangue”), Bráulio Pedroso (“Lola Moreno”), Marco Nanini e Marília Pêra (“O Mistério de Irma Vap”), entre tantos outros. Na televisão, fez “Vamp”, “TV Pirata” e gosta de ressaltar os trabalhos adaptados da literatura – como “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Memórias de um Gigolô” (Marcos Rey), “Anarquistas, Graças a Deus” (Zélia Gattai), “Éramos Seis” (Maria José Dupré) e “A Casa das Sete Mulheres” (Letícia Wierzchowski). “Não é frase de efeito, mas as pessoas pensam que me escolhem. Eu que escolho. Só faço o que eu quero. Sempre foi assim”, afirma, orgulhoso de sua trajetória.

70 anos de idade – “Mas não aparentando, né? Uma loucura!” – e cinco décadas de artes cênicas renderam bons amigos. Ney certamente é bem relacionado. Quando esteve internado, mobilizou a classe artística e recebeu apoio prático e financeiro da TV Globo. Em cartaz no teatro, atrai colegas de profissão diariamente para a plateia. Questionado sobre quem já foi ver “Entredentes”, ele revela que tem uma lista anotada em sua agenda, com cada nome. A lê com exclusividade: “Minha madrinha Marília Pêra, Bete Mendes, Natália do Valle, Louise Cardoso, Claudia Mauro, Guida Viana, Stella Miranda, Ângela Rabelo, Bruce que tem aquele sobrenome que não sei falar [Gomlevsky], Marcos Breda e ontem Marcelo Serrado. Estou bem. Estamos indo bem”. Ele, em contrapartida, assistiu à Irene Ravache (em “Meu Deus”) e ao Ary Fontoura (em “O Comediante”) recentemente. Lamenta a carência de espaços para o teatro carioca, lembrando que muitos locais foram fechados definitivamente ou para reforma, e não foram abertos outros. “Deviam transformar ali onde tem o Teatro Carlos Gomes e o Teatro João Caetano em uma Broadway. Vários teatros, todo mundo trabalhando, fazendo as comédias em pé, os musicais, os textos, tudo”, divaga, visionário. “Ficou todo mundo dentro de teatros ligados aos shoppings e eles têm aluguéis muito caros. Você só consegue sobreviver se estrear no Rio e viajar com a peça. É difícil. Ator gosta de sofrer. Gosta…”.

Ney Latorraca em "Entredentes" (Foto: Divulgação)
Ney Latorraca em outro momento de “Entredentes” (Foto: Divulgação)

Apesar dos ônus da profissão, ele garante que nunca pensou em desistir ou tentar outra carreira. “Imagine eu em uma autopeças, gerente de uma loja de carros em Cuiabá. Não dá certo”. Neste mês, no entanto, uma reportagem do Globo trouxe declarações assustadoras do ator: “Estou com 70 anos e sinto que já posso parar” e “Preciso de um tempo só pra mim, mesmo”. Ao Teatro em Cena, ele explica que não é bem assim. Ney Latorraca quer apenas diminuir o ritmo. Ter mais tempo para ele, de fato. O artista não quer mais se desdobrar em trabalho, gravando novela de dia, fazendo teatro à noite e filmando de madrugada, como já fez. “Até para o público é melhor. Quando você aparece, vira uma novidade. Não é ‘Ai, aquela pessoa chata… de novo… Ai meu Deus, aquele mala!’”. Até para a profissão, ele precisa de vivências: ler, viajar, ir a museus, se cuidar. Nesses dias gripado, se trancou em casa e leu “Aparecida”, do jornalista Ricardo Alvarez. “Eu tenho que estar bem. Tenho que ir ao dentista, ao oculista, ao urologista, a todos os istas. Tenho que me cuidar, né? Para mim e para o público. Estou fazendo isso aos pouquinhos. É o retorno do Latorraca”.

No ano que vem, no entanto, ele deverá se dividir entre a peça e a novela, como for possível. Não quer que “Entredentes” termine agora. Pensa em levar a peça para outras cidades do estado ou fazer outra temporada na capital, em um teatro diferente. Não está nada definido, mas ele sabe que estar no palco é importante para ele nesta retomada. “Meu primeiro professor, lá em Santos, Serafim González, me falou quando comecei a trabalhar com ele em peças infantis: ‘Você foi mordido pelo micróbio do teatro e ele nunca mais vai sair de você’. Nunca esqueci disso, porque é verdade. Aqui é minha casa”.