Nômades usa performances nonsense para mostrar fases do luto

Em cartaz no Teatro Poeira, “Nômades” é uma loucura cênica. O espetáculo, estrelado por Mariana Lima (de “À Primeira Vista”), Andréa Beltrão (de “Jacinta”) e Malu Galli (de “Oréstia”), mais do que instigar qualquer reflexão, põe interrogações na cabeça do espectador, sem tirá-las de lá nunca. As atrizes parecem saber o que estão fazendo, mas não conseguem comunicar. Assim como suas personagens, o texto é profundamente embriagado. Foge a compreensão o que não quer ser compreendido.

(Foto: Divulgação)

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Com o filme “Os Maridos” (Husbands, 1970) como principal referência, a trama se passa em um dia e acompanha a reação de três amigas à morte precoce de uma quarta amiga. A encenação intercala cenas de diálogos (sobre as diferentes fases do luto) com outras mais performáticas (as amigas são artistas, ao que se conclui) – com dublagens, cantorias ou coreografias de músicas que vão de Maria Bethânia a Donna Summer e de Michael Jackson a Tom Jobim. Essas performances dão o tom do espetáculo, mas não dizem a que vieram, aparecendo e desaparecendo repentinamente de maneira aleatória, até que se prove o contrário. Ao público, resta fazer cara de paisagem.

O cenário (de Fernando Marés e Marcio Abreu) traz uma parede de portas vermelhas (possibilidades?), uma sofá de três lugares e uma mesa com taças excessivas. As personagens passam todo o tempo bebendo, o que é uma justificativa para tudo que não faz sentido. A iluminação (de Nadja Naira) é condizente, em meia luz. Os figurinos (de Cao Albuquerque e Natália Durán) são particularmente interessantes, pontuais para cada performance, e bem elaborados. No resto do tempo, elas usam terninhos uniformes (para diminuir a feminilidade? acentuar o luto? buscar uma homogeneidade? não se sabe…). Mas tudo tem um quê de irreal. Não surreal, mas irreal.

(Foto: Divulgação)

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O luto das personagens parece, por vezes, ser deixado de lado ao bel trazer das vontades cênicas das atrizes. Elas e Newton Moreno (de “O Grande Circo Místico”) colaboraram com o texto, assinado por Patrick Pessoa (de “Oréstia”) e Marcio Abreu (de “Vida”), que também dirige. A sensação é que elas se divertem ao fazer o que desejam no palco, em detrimento de qualquer lógica e, principalmente, de qualquer conexão com a plateia. Há uma falha entre o emissor e o receptor da mensagem. Por vezes, a obra é metalinguística, sem possibilidade de discernir o que é intérprete e o que é personagem que diz. E essas são as partes legais.

“Nômades” fica no Teatro Poeira, em Botafogo, até o dia 21 de dezembro, com sessões de quinta a sábado às 21h e domingo às 20h. Os ingressos custam R$ 80.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.