Nova montagem de Dhrama desperdiça lado cômico do texto

resenha-2estrelasemeia

O primeiro impacto é bom. Assim que você entra na sala do Teatro III do CCBB para ver a nova montagem de “Dhrama: O Incrível Diálogo Entre Krishna e Arjuna”, encontra o chão coberto de areia. É parte da bela cenografia do espetáculo. Mas, quando a encenação começa, há certo desconforto com relação aos atores. Lívia de Bueno, a Krishna, entra em cena com uma expressão corporal confusa para uma deusa – o que é seguido por Luca Bianchi, o guerreiro Arjuna e, também, diretor da montagem. É o primeiro tropeço.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Dhrama” é um texto de João Falcão sobre o impasse de Arjuna, o maior guerreiro de todos os tempos. Quando se vê obrigado a combater seu mentor, ele se recusa a continuar a guerra – em pleno campo de batalha – e Krishna aparece para convencê-lo do contrário: a seguir seu desafio. A inspiração para a dramaturgia é do clássico da filosofia hindu “Bhagavad Gita”, parte do livro sagrado “Mahabharata”. Não é o melhor texto do João Falcão, nem de longe (é muito repetitivo), mas se torna pior, porque Luca não consegue imprimir humor em nenhum dos momentos claramente bem humorados do diálogo entre Arjuna e Krishna. Há um problema claro de timing de comédia. A peça é classificada como “comédia dramática”, mas não se vê nada cômico em absolutamente nenhum momento.

Os atores (lindos!) estão fora de tom – e isso parece um reflexo da autodireção do Bianchi. Os dois impostam a voz de maneira tão inexplicável quanto desnecessária, desperdiçam as falas bem humoradas do autor, e disparam o texto com velocidade de quem quer logo passar a bola para o outro. Falta lapidação, porque há potencial para melhorar.

Esteticamente, no entanto, o espetáculo é lindo. O cenário de Miguel Pinto Guimarães, os figurinos de Paula Raia e o desenho de luz de Renato Machado formam um tripé perfeito e confirmam uma produção elaborada. Juntos, esses três elementos proporcionam cenas lindas aos olhos, com efeitos surpreendentes e inesperados. Eles apresentam soluções inteligentes para várias questões dramáticas e por vezes se destacam. Quando o espetáculo termina, é o que fica.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 10. 60 min. Classificação: livre. Até 26 de abril. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro III – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.