Uma adaptação teatral do livro “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector (1920-1977), estreou no palco do Teatro Municipal Café Pequeno, no Leblon, no último fim de semana, chamando a atenção por uma questão: há nove atrizes para interpretarem a mesma personagem. Joana, protagonista da obra literária, é descrita como uma mulher inquieta, que vive uma constante busca de si mesma. Nove atrizes para vivê-la ajuda nessa busca? O diretor Delson Antunes (de “O Homem Vivo”) acredita que sim.

(Foto: Divulgação)

– Esta montagem foi originada em uma oficina de reciclagem para atores, na qual utilizei os textos de Clarice. Havia nove mulheres. Quando resolvemos montar o espetáculo, acreditei ser interessante que todas fossem Joanas. Algumas são também outros personagens femininos. Isso me enriquece as possibilidades de encenação. Posso ter, por exemplo, ao mesmo tempo, uma Joana no presente, outra no passado, outra na fantasia. Ou nove ao mesmo tempo. Uma multiplicação de Joanas. Criei a dramaturgia e a encenação a partir desta ideia. – ele explica ao Teatro em Cena.

A trajetória de Joana tem mesmo vários momentos. Ela perde a mãe e depois o pai ainda na infância, indo viver com os tios. Ao transgredir a hipocrisia e severidade da casa, é enviada para um orfanato, onde se entrega ao mundo dos sonhos para fugir da dura realidade. Seu caminho é sempre em busca de sua singularidade, e o livro em si é bastante introspectivo. Foi o primeiro romance de Clarice, lançado em 1943. Para o diretor, que adaptou o texto, a montagem se justifica pela força da personagem. A missão, no entanto, ele admite ter sido difícil.

– Mas adoro o exercício. Adaptar literatura para o teatro tem sido uma constante em minha carreira nos últimos anos. Fiz Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, Ana Cristina Cesar, entre outros. Na maioria das vezes, adapto pra eu mesmo dirigir. Então deixo algumas dúvidas de dramaturgia para a encenação decidir. Faço as escolhas já pensando no elenco que tenho. Desta vez é um grupo novo. Um elenco de jovens, com um ator convidado, Rodrigo Candelot. A juventude nem sempre tem em si a bagagem de vida pra interpretar textos tão complexos como os de Clarice. Ao mesmo tempo, me traz uma força, uma vontade, uma entrega e um trabalho de equipe que pode suprir as compreensões que só o tempo traz. – conta.

Clarice Lispector nunca escreveu para teatro, mas sua obra inspira incontáveis peças até hoje. Delson acredita que o elemento humano é o que há de essencialmente teatral nos textos da escritora. “Clarice vai fundo na subjetividade humana, penetrando e nos revelando regiões que muitas vezes desconhecíamos, mas logo nos identificamos. Ela revela também a nossa eterna contradição, e este elemento é essencial para a linguagem dramática. Ele que traz os conflitos e faz a ação andar pra frente”, analisa o diretor, “Clarice Lispector é uma autora universal. A tendência é que seja cada vez mais reconhecida no mundo”.

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SERVIÇO: sex a dom, 20h. R$ 40. 70 min. Classificação: 14 anos. Até 14 de maio. Teatro Municipal Café Pequeno – Avenida Ataulfo de Paiva, 269 – Leblon. Tel: 2294-4480.